O FIGURA - Júlio César Pereira Borges

05/12/2013 12:00

 

Pai, morador da cidade de Catalão-GO, 84 anos, viúvo, pai de 09 filhos, jogador de truco, visitador de vizinho, cristão de roça e apaixonado pelo Corinthians.

Filho, morador de Goiânia, 41 anos, divorciado, não tem filhos; não joga nada, não conhece os vizinhos, ateu e já foi apaixonado pelo Corinthians.

Ambos em uma conversa:

- Pai.

- O quê?

- O que isso na mão do senhor?

- Dedo.

-Tô perguntando sobre esse papel. Engraçadinho!

-Jornal.

- Jornal de quê?

- De papel.

- Vai pentear macaco.

Breve silêncio. O pai com leve sorriso responde:

- É jornal da Canção nova.

- Credo pai, não tem outra coisa para ler?

- Cada qual no seu cada qual.

Breve silêncio.

- E esse calor. Ainda bem que tem previsão de chuva para hoje.

- Chove não. O vento não virou.

- Como o senhor sabe?

- É só repará. Se bem que hoje não dá pra afirmá nada. Até na chuva não pode confiá.

- É pai. A ciência tá muito evoluída, dificilmente erra.

- Bobage. Por que eles não faiz chuvê,então?

- Já fazem. Bombardeiam as nuvens com sódio o que provoca a precipitação.

- O quê?

- Joga sal nas nuvens derrete o gelo e chove.

- Não adianta nada. Onde não chove não tem nuvens.

- O senhor não deixa de ter razão.

- É lógico.

- KKKKK. É pretencioso.

- O quê?

- Convencido.

O pai esboça uma rápida expressão facial de não concordância, mas não leva adiante o assunto. Segue novamente um breve silêncio. E, então, ao observar o novo carro de seu filho lhe pergunta:

- Esse carro é mais caro do que o outro?

- Não. É mais barato.

- Pra quê que trocô. Cê tá andando é pra trais?

- Tô de licença para fazer o doutorado e meu salário reduziu.

- Pra quê fazê isso, então?

- É investimento na minha carreira.

- Investimento pra perder dinheiro!

- Quando terminar, tenho aumento de salário.

- Muito? Vai ganhar mais que antes?

- Praticamente a mesma coisa, mas vou trabalhar em um só lugar e menos.

- Trabalhar menos pra quê? Na sua idade eu levantava 4 horas da manhã, tirava leite de 70 vacas, sozinho, desnatava, trabalhava na roça e quando tinha lua clara limpava o quintal.

- Hoje, as condições são outras. São outras exigências para a sobrevivência. Sou professor, tenho que estudar.

- Parece que ocê vai ficar três anos atoa?

- Atoa não. De licença para estudar. Estudar é trabalho.

- Como é que tem gente que estuda e trabalha?

- O senhor, hein! Quando não quer entender não adianta.

- Só tô falando como é. As coisa de hoje é muito mais fácil e o povo ainda acha difícil.

- Isso é relativo.

- O quê?

- Depende do ponto de vista.

- Depende nada. É do jeito que eu tô falando mesmo.

- Não adianta. Vou ter que concordar com o senhor.

- Tem nada. Cada qual no seu cada qual.

- Eu acabei de dizer isso e o senhor não concordou.

- Falô nada.

O filho em silêncio, olhou para seu pai e sem que ele percebesse balançou levemente a cabeça num sinal de negação. Entendendo que a sequência da conversa só iria incrementar a discórdia, manteve-se calado. Enquanto seu pai disfarçadamente lhe observava de rabo olho.

Retornando o assunto, o filho fala.

- Vou trazer um livro que eu tenho para senhor. Sertão sem fim, de Bariani Ortêncio. Aquele do programa Frutos da Terra. Ele retrata a vida do senhor.

- Ele nem me conhece.

- Tô falando no sentido figurado, pai.

- O quê?

- O livro retrata a vida do sertanejo, da vida do homem da roça.

- É livro de retrato?

- Não pai. Retratar significa contar a história do sertanejo.

- Retratar para mim é tirar retrato.

- Então, tá pai.

- Acho que o senhor vai gostar, tem umas 200 páginas.

- Deus me livre. Vou morrer e não terminei de ler o livro.

- Não precisa ler ele todo.

- Então, o que adianta?

- O livro é de contos curtos. São pequenas histórias. O senhor pode ler uma ou duas por dia.

- Não vou entender nada, não.

- Entende: são histórias que o senhor já viveu.

- Eu?

- Eu sei que o senhor entendeu o que eu disse e está com graça.

- Quando eu voltar aqui eu trago.

- Não sei se vou ler, não. Vai atrapalhar meu truco.

- Antes de cada jogo, se o senhor ler em voz alta para seus parceiros de truco, eles vão gostar, todos já passou dos 80 anos e conhecem o que está escrito no livro.

- Se já conhecem, não precisa ler, então.

- Pai. Vai catar coquinho.

Com um leve sorriso, o pai disse:

- Já pensou eu lendo para veiarada. Tenho que começar um dia antes do jogo. Eu leio de vagar; o Erpídio não escuta bem, tem que gritar; o Dito dorme até com as cartas na mão, imagina escutando eu ler.

-KKKKKKKKK. O senhor é uma figura.

 

Júlio César Pereira Borges

Professor do curso de Geografia da Universidade Estadual de Goiás e doutorando pelo

Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás

jcesar.ueg@gmail.com