GEOGRAFIA SISTEMÁTICA E REGIONAL: UMA ANÁLISE CRÍTICA DE RICHARD HARTSHORNE - Matheus Feliciano dos Reis & Luiz Fernando Roscoche

27/05/2015 12:00

 

Questões teóricas e metodológicas são basilares para todas as ciências, inclusive no caso da Geografia. Muitos podem desdenhar da leitura de clássicos dessa ciência sob a alegação de que os pressupostos teóricos apresentados pelos mesmos estariam superados. Recorrer aos clássicos permite que o leitor possa conhecer o pensamento do respectivo autor sem correr o risco de análises parciais feitas por terceiros. Outra grata surpresa ao se ler um clássico é a oportunidade de compreender a gênese e transformação das discussões téorico-metodológicas e perceber que muitos conceitos tidos como inovadores e contemporâneos são, em muitos casos, releituras de conceitos e teorias já presentes pelos autores clássicos.

O diálogo que estabeleceremos parte de uma obra de autoria do geógrafo estadunidense Richard Hartshorne (1899-1992), Perspectives on the Nature of Geography (Questões sobre a Natureza da Geografia), publicada em 1959, que consiste em uma compilação de respostas às críticas feitas ao seu trabalho anterior, The Nature of Geography (A Natureza da Geografia), de 1939. Um dos cernes da discussão de Hartshorne é o estudo da diferenciação de áreas pelas relações entre fenômenos heterogêneos, e o autor trata sobre o método a se proceder para a distinção de variáveis conforme a distribuição geográfica. Ao buscar discutir a Geografia Sistemática ou Regional, provoca o leitor a pensar nessa suposta dualidade geral/particular ao mesmo tempo em que defende que tal dualismo não existe.

O surgimento da Geografia Regional marca a proposição de que as análises específicas poderiam suplantar as genéricas, ao tomar como objetos de estudo as unidades de área. Já a Geografia Sistemática seria dedicada à investigação de diversos fenômenos mais gerais, sem partir de sua manifestação específica nas áreas, buscando fornecer uma classificação dos elementos que compõem a totalidade do objeto de estudo, como por exemplo, da crosta terrestre.

O autor nega a dicotomia em Geografia ao considerar que não se pode "amputar" importantes segmentos da disciplina, e que as integrações complexas de fenômenos que variam ao longo das áreas constituem a realidade do mundo. Dessa forma, não se poderia separar a Geografia das análises sistemáticas e os estudos que partem da classificação de categorias de fenômenos, ao mesmo tempo em que não se poderia relegar a segundo plano as análises atribuídas ao método regional, que trata de estabelecer as interrelações de fenômenos que se dão na proximidade dos lugares.

No seio das regiões, segundo Hartshorne, se apresentarão necessariamente interrelações mais estreitas entre os fenômenos. A organização política por divisão de áreas, adotada pela maioria dos governos decorre justamente desse fato, o que nos faz lembrar, em um parêntese, do conceito de regionalização. Importante lembrar, também, que o autor demonstra ser teoricamente impossível estudar o conjunto total de fenômenos significantes de uma área. Mesmo assim, defende que “qualquer estudo verdadeiramente geográfico envolve o emprego” tanto de critérios gerais como regionais (p. 129).

Segundo o autor, a análise por etapas de complexidade ou por complexos-de-elementos tem como primeiro nível as integrações de maior variedade de categorias. Indispensável ao critério é, porém, ressaltar que variedade não é sinônimo de complexidade. O autor alerta justamente que um complexo-de-elementos está na qualidade de uma associação de elementos, sendo mais do que somente a soma de elementos apenas ligeiramente interrelacionados.           

Os complexos-de-elementos se organizariam, para o autor, numa ordem que parte dos elementos inorgânicos; orgânicos; e humanos ou sociais; em que a complexidade de integração entre os elementos é respectivamente crescente. Considerando o homem como fator determinante na complexidade de integração, esse método de análise não permite, porém, uma aplicação universal, pois admite-se que a estrutura sociocultural - inerente ao elemento humano - provoca alterações nas interrelações de acordo com a variação espacial. Apresentam-se assim diferentes estruturas de complexos-de-elementos em função de cada arranjo cultural. Podemos exemplificar com o uso da terra, que em uma área onde se organiza uma sociedade de mercado será inteiramente distinto do que o verificado numa área em que há, por exemplo, uma aldeia indígena.

O próximo passo na análise dos complexos-de-elementos seria analisar as relações entre complexos, que são necessariamente mais "frouxas", de menor integração, correspondendo à visão macroscópica de mundo. Considerando tal método, as etapas iniciais, de maior variedade de elementos, representariam os Estudos Regionais; enquanto os Estudos Tópicos corresponderiam à próxima etapa de interrelações, mais frouxas. Como defende o autor, ambos os critérios atuam em reciprocidade na análise da complexidade de integração dos fenômenos ou elementos. O autor destaca também que as integrações de elementos não obedecem a uma ordem estabelecida de interrelação, pelo fato de que o elemento humano, por ser influenciado pela variância cultural, não produz sempre as mesmas integrações entre os mesmos elementos; da mesma forma que o caráter único de cada área permite diferentes significâncias nas integrações dos elementos segundo a sua localização.

Ao discutir a aplicação de tal método tanto nos estudos regionais quanto nos tópicos, o autor realça que a subdivisão em áreas de escala reduzida para compreender as variações espaciais de complexidade poderá ser utilizada como forma de análise quando se toma o conceito de região como "seções de áreas", considerando assim que existe uma distinção fundamental entre conceito ou método regional em relação ao que se chama de Geografia Regional. O método regional serviria, nesse intuito, para evidenciar o caráter gradativo das diferenças advindas de conceituações distintas de região empregadas pelos pesquisadores, que muitos consideram erroneamente como sendo uma perspectiva dicotômica entre os estudos regional e tópico.

Sendo assim, Hartshorne considera que o emprego da palavra "região" acaba não sendo diferente do que prevalece no senso comum, ou seja, algo como um conjunto de elementos que se distingue dos demais, sem uma delimitação primária. Diante da possível variabilidade do termo o autor advoga por uma maior precisão técnica em seu uso para que este seja mais objetivamente aplicável, afirmando que a categoria é melhor descrita como “uma área de localização específica, de certo modo distinta de outras áreas, estendendo-se até onde alcance essa distinção” (p. 138), e essa distinção é definida pelo pesquisador ao pesar a importância dos diferentes fenômenos.

A ideia de homogeneidade, como sendo um clássico imperativo para a definição da região, é criticada pelo autor, uma vez que poderia levar a enganos. Os critérios e escolhas do pesquisador são cruciais na definição do que ele chama de "áreas de certo tipo" e não precisamente na definição de região. A região seria para Hartshorne um primeiro passo (uma abstração) para a explicação da geografia de uma área por meio de uma generalização lógica, não meramente descritiva, de relações de processos, ao se tratar a integração (complexidade) de dois ou mais elementos, indo além da classificação de homogeneidades.

Abrangendo esse raciocínio, o autor dá destaque aos estudos na geografia que abordam o conceito de região sob a perspectiva de conexão de lugares, tendo como exemplo as regiões metropolitanas e o surgimento das discussões relativas a região "nodal" ou "uniforme". Dessas discussões deriva o conceito das regiões formais e funcionais. As unidades formais seriam baseadas em elementos interrelacionados, enquanto as funcionais seriam a expressão da teoria de relações e processos, as conexões entre áreas diferentes.

Ao determinar uma região formal o pesquisador estaria assim criando uma síntese de uma área limitada aos aspectos variáveis escolhidos por ele (olhar tópico); e ao considerar as relações, ele estaria constituindo a ideia de unidade funcional (olhar regional). Cada região funcional, segundo o autor, seria dotada de tamanho, forma, estrutura e configuração de movimentos internos que lhe são característicos. O autor considera que algumas regiões funcionais podem fazer parte de outras regiões funcionais em outros níveis, e cita os casos mais distintos em sua análise, como das regiões de "modernas comunicações e comércio", como constituintes de uma "superposição parcial", o que nos faz pensar que em sua época já se pretendia a elaboração de um modelo conceitual semelhante ao que chamamos de redes.

Para Hartshorne, não se pode esperar correspondência entre regiões baseadas na homogeneidade e as baseadas na organização funcional, pois ao combinar fatores de regiões formais e funcionais haveria um grande número de transigências (exceções, ou aquilo que não se encaixa nas classificações previamente estabelecidas) entre padrões que não poderiam ser medidas. Em outras palavras, certas divisões de área não seriam regiões funcionais nem formais, mesmo que cada uma dessas apresentasse certo grau de unidade formal ou funcional. Tais exceções oriundas do processo de definição das regiões são solucionadas segundo o autor pela subjetividade do pesquisador, voltando assim à conceituação arbitrária de região.

Portanto, o que se precisa é "uma organização dividida regionalmente em determinado nível e topicamente em diferentes níveis, de modo que seja possível facilitar a combinação de critérios, conforme as demandas de cada estudo particular" (p. 152). Nesse sentido, seria indispensável o emprego de ambos métodos de análise: análises de segmentos de integração (regiões funcionais, estudos regionais) e análises de seções de áreas (regiões formais, estudos tópicos), provando o autor que não se divide a Geografia em Sistemática e Regional.

 

Referência

HARTSHORNE, R.Divide-se a Geografia em "Sistemática" e "Regional"? In: Propósitos e natureza da geografia. Pp. 115-154. São Paulo: Hucitec, 1978.

 

 

Matheus Feliciano dos Reis

Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de Goiás e integrante do 

Grupo de Estudos em Teoria e Metodologia da Geografia (GEOtema).

Email: theustalk@gmail.com

 

Luiz Fernando Roscoche
Doutorando em Geografia pela Universidade Federal de Goiás e integrante do 

Grupo de Estudos em Teoria e Metodologia da Geografia (GEOtema).

Email:luizfrrs@hotmail.com

 

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Ficha bibliográfica:

REIS, Matheus Feliciano dos; ROSCOCHE, Luiz Fernando. Geografia sistemática e regional: uma análise crítica de Richard Hartshorne. In: Territorial - Caderno Eletrônico de Textos, Vol.5, n.7, 27 de maio de 2015. [ISSN 22380-5525].