ENCERRAMENTO DAS OLIMPIADAS RIO 2016: NORDESTE ESTILIZADO OFERTADO PARA QUEM? - Isis Maria Cunha Lustosa

25/08/2016 12:39

...Olha a renda ê

A renda saindo dos bilros

Olha a flor

A flor saindo do fio

Da rendeira

A flor saindo do fio...[i]

Chão Batido, Grupo Gente da Terra

 

A Renda de Bilro do Encerramento cenográfico das Olimpíadas Rio 2016 deriva da Bahia com as Ganhadeiras? Retomo à frente com as Rendas de Bilros das Rendeiras do Ceará (Figuras 1 e 2).

Na condição de cidadã brasileira estarrecida com mais um falacioso evento mundial no desgovernado Brasil com (educação/cultura) sufocadas pelo atual Golpe, dentre os demais contextos indefinidos e temidos, não poderia seguir como uma torcedora a Tocha da Rio 2016. Custar-me-ia extremamente perante a atual conjuntura econômica e política do país! Contudo, não hesitaria mirar algumas notícias difundidas, com lupa para aquelas dos veículos midiáticos encomendadas com fins de perpetrar as espetacularizações. Arenas julgadas positivas pelo prefeito da capital Rio de Janeiro, membros dos Comitês Olímpicos (Nacional e Internacional), parceiros (público-privado) coniventes e aqueles simpatizantes dos Jogos Olímpicos “Agora é BRA”[ii] do patrocinador Bradesco, formulador da  estratégica publicidade musicada “Se ligaê”[iii]jingle para  os ligados no sinal digital da Globoplay.com, imperativa no canal Play nos Jogos do slogan “Somos Todos Olímpicos”[iv]!  Por sequenciados dias de swing na popular Cidade Maravilhosa com “águas de março”[v] vindouras em agosto conferiram-se os espetáculos para os fins de garantir os fluxos turísticos atuais e futuros de visitantes internacionais. Não faltou comunicado prévio otimista no site www.brasil2016.gov.br (Portal Oficial do Governo Federal sobre os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016).  

A expectativa é de que entre 300 mil e 500 mil visitantes estrangeiros visitem o Brasil antes, durante e depois dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Segundo o presidente da Embratur, Vinícius Lummertz, os eventos internacionais realizados desde 2007, como os Jogos Pan-Americanos, a Rio+20, a Copa das Confederações, os Jogos Militares, a Copa do Mundo e, agora, as Olimpíadas, elevaram o patamar do país a nível mundial[vi].

O Ministério do Turismo (MTur) corroborou a expectativa do Instituto Brasileiro de Turismo (EMBRATUR) e assegura “investiu R$ 625,3 milhões em obras de desenvolvimento da infraestrutura turística nas cidades de São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Manaus, Belo Horizonte e Brasília”[vii], cidades sedes dos jogos de futebol do momento desportivo. O Mtur difundiu o Rio de Janeiro, as cidades-sede, bem como sustentou com os seus parceiros (público-privados) o marketing turístico durante a Cerimônia de Encerramento das Olimpíadas para projetar outros destinos nacionais e fortalecer a marca Visit Brasil, atrativa do visitante do exterior. Os governantes convencidos revelam:

Os 410 mil turistas internacionais que estiveram no Rio de Janeiro nos 12 dias iniciais dos Jogos Olímpicos deixaram pouco mais de R$ 2 bilhões no Brasil [...] O segmento de hotelaria registrou ocupação de 94%. ‘É um resultado considerável e que merece ser comemorado. O prefeito do Rio está de parabéns e teve um papel heroico que tem que ser reconhecido’, afirmou o presidente da Embratur [...] Já o prefeito Eduardo Paes destacou [...] ‘Os cariocas e todos os brasileiros que aqui estiveram mostraram uma enorme capacidade de entrega, de ajudar a fazer com que esse evento gigantesco acontecesse da forma como aconteceu’. O ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, disse que a capital carioca, uma grande porta de entrada para o Brasil, se intensificou com a Olimpíada [...] Outro número reforçado por ele foi o de turistas que declararam a vontade de retornar ao Rio. ‘Em pesquisa realizada pelo Ministério do Turismo durante os Jogos, 95% dos estrangeiros disseram que voltariam ao País [...]’ Vinicius Lummertz, acredita que a Embratur assume, ainda mais, um papel estratégico nessa reta final do Jogos. ‘Agora vem a realização da Paralimpíada e também temos a permissão do COI para posicionar a marca Visit Brasil para o mundo  [...][viii]

Espera-se não predominar, ainda mais, neste difundido “patamar do país a nível mundial” almejado pela EMBRATUR com a Visit Brasil os fluxos receptivos dos “(gringos) auto-identificados como ‘turistas sexuais’ (mongers)” (BLANCHETTE, 2011, p.1), predominantes no Nordeste do Brasil, Região do país excessivamente explorada na festa final da Rio 2016. Para quem se admira com a menção gringos (mongers), trata-se do público dominante na costa brasileira, ênfase para o litoral nordestino, ressaltado em várias pesquisas, como no trabalho “Turismo sexual na cidade de Fortaleza, estado do Ceará, e sua interface com a exploração sexual de crianças e adolescentes e com o tráfico de pessoas”. A autora, Membro do Grupo de Pesquisa - Família, Gênero e Sexualidade (FAGES), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), destaca:

O fato do Nordeste do Brasil ter se tornado um roteiro almejado por turistas sexuais recentemente e a forma particular como esse turismo se desenvolveu nesta região [...] vêm se tornando alvo de politicas públicas e de debate nas organizações da sociedade civil no Brasil e no Nordeste: o turismo sexual ligado à exploração sexual de crianças e adolescentes e ao tráfico de pessoas. Traço nesse trabalho as configurações do turismo sexual na cidade de Fortaleza/CE e sua interface com os fenômenos elencados, a partir de pesquisa realizada no ano de dois mil e doze (RIBEIRO, 2013, p. 1).

Por qual motivo o Nordeste brasileiro de modo estilizado foi amplamente projetado na Cerimônia de Encerramento da Rio 2016? Por que mais ainda a mostra expandida do estado de Pernambuco da Veneza Brasileira (capital Recife)? Generosidade Sudestina? Isso, não foi mesmo! Na condição de nordestina e pesquisadora no âmbito do turismo (evidência para a Zona Costeira do Nordeste) me cabe refletir sobre algumas inquietações, inclusa o corte do Nordeste exposto como cultural a partir da perspectiva da equipe contratada para dirigir o Encerramento dos Jogos Olímpicos 2016. O célebre nordestino paraibano, Jackson do Pandeiro, caso estivesse vivo, emudeceria o prezado Pandeiro devido o desapontamento daquela fatia de Nordeste Estilizado no centro do popular Maraca. E, outro nordestino, Mestre Vitalino, contrariado estaria ao avistar as representações dos seus bonecos todos (idênticos, simétricos em série no molde fordista de produção) gingados no solo do mesmo Estádio do Maracanã. Em decorrência daquela cena poderia faltar-lhe vitalidade e o mestre pernambucano da arte figurativa de barro, correria o risco de errar a liga da modelagem para criar os seus bonecos reais (díspares sem simetrias padronizadas). O músico e o artesão em questão ficariam perplexos com os contrassensos exibidos. Capturo a composição “Jack sou brasileiro”, exibida no mesmo Encerramento da Rio 2016 pelo músico pernambucano Lenine, para pontuar um dos seus trechos “Esse é o país da contradição”. Se for a partir de então discorro a respeito das fantasiadas Rendeiras maestras das Rendas de Bilros trazidas no molde das Ganhadeiras de Itapuã - Bahia. Embora a gigante renda tenha sido a ornamentação para o fundo musical da composição Mulher Rendeira, realmente não apreendi a liga entre as Rendeiras e as Ganhadeiras, 

pois surgiu o grupo AS GANHADEIRAS DE ITAPUÃ, batizado com este nome em homenagem às mulheres que no século XIX e inicio do século XX compravam os peixes na mão dos pescadores locais, tratavam, empalhavam, e saiam com seus balaios a pé (pois não havia estradas na época) até o centro da cidade de Salvador para venderem os seus produtos e ganhar o sustento da família. O grupo tem como objetivo principal trazer à tona toda a riqueza desta identidade cultural, proporcionando à comunidade e aos visitantes, momentos de intensa alegria, fortalecendo a tradição das festas populares do bairro, e levar a cultura de Itapuã para outros lugares do Brasil e do mundo, participando de eventos onde se celebra a diversidade cultural e a autodeterminação dos povos.

Ganhadeiras nas músicas representam as Rendeiras na arte de manejar os fios pelos bilros? Segundo a mídia “O grupo é formado por antigas lavadeiras da Lagoa do Abaeté onde, nos intervalos do trabalho, faziam batuques, sambas de roda, cantorias e contavam histórias [...] ‘Com o passar do tempo, esses costumes de Itapuã foram parando, os mais velhos morrendo. Então, nos juntamos para conversar sobre Itapuã, contar causos, brincadeiras. Depois fomos ensaiando cantigas antigas’”.[ix] Embora todo o meu respeito às Ganhadeiras de Itapuã, observa-se a falha proporcionada pelos diretores do espetáculo noturno no domingo carioca em 21/8/2016. A figurante Rendeira frente à almofada de bilro (Figura 3), o seu semblante incluso a veste, dentre as demais dançantes (Figura 4) expressava muito mais a representatividade da Baiana de Acarajé e/os as Mãe de Santo que, a pretensa, Rendeira (Figura 5).

Valorizo às Ganhadeiras, as Baianas de Acarajé e/ou Mães de Santo. O absurdo foi o descuido na história das Rendeiras/Rendas de Bilros, portanto, proporcional ao desgoverno homicida da cultura do país. Os diretores do encerramento responsáveis por fiascos no mega-show de encerramento criado apenas para vislumbre, caberia minimamente terem pesquisado mais, mas a educação também foi obscurecida no mesmo governo federal em exercício. Assim, a citada equipe do espetáculo final global por infortúnio, também, ocultou o Ceará um dos estados do Nordeste referência na arte da Renda de Bilro. Sem atentaram inclusive para as controvérsias das origens desta renda. Deveriam deter a informação não ser a Renda de Bilro originada na Bahia, pois

[...] o sul do Brasil é apresentado como um dos primeiros centros ‘receptores’ da renda de bilro. A imigração açoriana naquela região justifica tal explicação; no entanto, existem outras versões, como a da influência holandesa no Nordeste, desde o século XVII. Essa região é, ainda hoje, conhecida foco de produção de renda de bilro, da qual o Ceará é o Estado de maior representação, no qual essa técnica é mais difundida e a rendeira é considerada como um “símbolo de identificação grupal” (Fleury, 2002: 18). A tese mais defendida pelos especialistas, acerca da chegada da renda de bilro no Brasil, é que tenha vindo juntamente com a colonização portuguesa. O fato é que, dentre suas similares, essa técnica foi a que atingiu maior abrangência geográfica, sendo encontrada em vários Estados: Pernambuco, Sergipe, Piauí, Maranhão, Amazonas, Pará, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Nesse sentido, Dantas aponta para a possibilidade da renda de bilro ter procedências distintas[x].

Retiro-me daquela cena contraditória do canal virtual proporcionada a Renda e a Rendeira. Sobressalto no texto para ressaltar propositadamente “os gringos - auto-identificados como ‘turistas sexuais’ (mongers)” – domínio nas capitais nordestinas Fortaleza e Natal – visivelmente invadidas. No universo Olímpico no Brasil aflorou-se o conceito generalizado de gringo devido o fluxo internacional de “muitos, mas muitos gringos de diversos países!”[xi] e o reforço da expressão Gringolândia, samba, calor e filtro solar anti-zika[xii] na Rio 2016. Desde 2008 há um blogGringolândia na bolsa (http://gringolandianabolsa.blogspot.com.br/)”, segundo este o “seu portal de conhecimento sobre comportamento do investidos estrangeiro na bolsa de valores brasileira”.  A partir das expressões usuais gringos/gringolândia caberia muito bem no país do Visit Brasil haver a prática de um exercício cidadão para saber observar a diferença entre o estrangeiro visitante não gringo (mongers); o estrangeiro gringo (mongers) que

São homens dotados de escasso valor no mercado sexual/amoroso/matrimonial de seus respectivos países, que procuram estabelecer relacionamentos duradouros com ‘nativas’, inclusive com garotas que fazem ‘programas’. Há outros que, evitando mulheres percebidas como ‘de programa’, procuram garotas de camadas baixas, utilizando o trabalho como indicador do não envolvimento com a prostituição. Eles escolhem meninas pobres, percebidas como ‘simples’ e ‘autênticas’, supostamente não maculadas pela participação no mercado do sexo (PISCITELLI, 2004, p. 10).

E, ainda, a distinção entre os supracitados estrangeiros e o habitante do Brasil com cidadania múltipla (dupla nacionalidade), uma destas a brasileira, sendo este estatística da população dos Censos Demográficos do país; legalmente empregado; cumpridor de inúmeros deveres com (CPF, RG, Carteira de Trabalho, Passaporte, Cartão de Vacinas...), pagante de (IPTU, IPVA, gás, energia, água, alimentação, moradia, Plano de Saúde pra não compadecer no SUS) e batalhador pelos seus mínimos direitos cidadãos. A pejorativa e generalizada categoria gringo, quase universalmente é aplicada para todos os estrangeiros passantes ou habitantes no Brasil com desrespeito aos estrangeiros visitantes e/ou residentes no Brasil não inclusos na categoria gringo (mongers). Para subsidiar essas reflexões à luz de exemplo proveniente das citadas Olimpíadas, a figura do gringo (mongers) está tingida no quarteto de indivíduos arruaceiros titulados pela mídia como atletas, os nadadores americanos, em especial aquele mais dissimulado do grupo, sobre os quais se podem afirmar terem vindo à capital do Rio de Janeiro exclusivamente para conferir o lastimável slogan  dos “S” – Sexo, Sol, Suor e Samba – do hedonismo tropical, lema negativo jazido perpétuo do Brasil no exterior. Para muitos dos gringos (mongers) mais capciosos, sortudos e libertos dos holofotes policiais, o “Brasil tropical” de cultura plural, esteve espetacularizado à altura dos seus bel-prazeres, pois “Vivemos numa sociedade midiatizada onde as culturas populares são atrativos para o exibicionismo televisivo, onde quase todos os acontecimentos da vida cotidiana poderão transformar-se em espetáculos midiáticos [...] São momentos de grandes celebrações desde as [...] competições desportivas [...]” (TRIGUEIRO, s/d, s/p). A mídia global cumpriu o malévolo papel!

O espetáculo Olímpico perdurou na Cerimônia de Encerramento, assim como, nos 17 dias festivos na Cidade Maravilhosa. A capital Rio de Janeiro soa maravilhosa para as famílias anteriormente habitantes da Vila do Autódromo, tornadas vítimas das desapropriações decorrentes do evento mundial? As famílias retiradas por determinação do poder público tiveram os seus espaços físicos de histórias de vidas demolidos para serem erguidas às infraestruturas da Vila Olímpica e Paralímpica na Barra da Tijuca, consideradas “as casas dos atletas”[xiii], obviamente para os organizadores, muito mais importantes que as ‘casas soterradas’ dos antigos moradores da Vila do Autódromo. Os diretores contratados para expor o faraônico Encerramento dos Jogos Olímpicos conseguiram também borrar essa página das desapropriações da história do Rio de Janeiro. Os mesmos tingiram no sentido simbólico as alegorias dos tantos fantasiosos palcos multicores centradas no Maracanã à vista do Cristo Redentor. O marketing estratégico proporcionado às redes mundiais pouco se importava com os enfoques da cultura distorcida. Importaram-se com as performances da festa!  Naqueles instantes decorativos, sim, o nosso Jackson do Pandeiro, se estivesse presente em vida, contestaria com “A ordem é samba/ É samba que eles querem / E nada mais”[xiv]

Os diretores da Cerimônia de Encerramento da Rio 2016 ignoraram até as incompreensões de algumas alegorias, como aquelas dos humanos bobos, "brotos dançantes"[xv], os quais segundo o mesmo portal G1 “divertem gringos”, embora os jornalistas internacionais de outro veículo midiático admiravam-se com os verdes dançantes e houve a interrogação da “BBC: ‘O que está acontecendo?’[xvi]. Embora as incompreensões, infelizmente, as mídias internacionais quase unânimes congratularam a Rio 2016, sem minimamente atentar para os maculados panos de fundos do evento.

O conceito, Vila da Fantasia, veiculado para a Cerimônia de Encerramento para ocultar as outras notícias às vésperas do julgamento final do Impeachment de Dilma Rousseff, pelos simpatizantes foi considerada um sucesso. Dentre a imensa população brasileira, projetaram uma amostra reduzida dos brasileiros felizes com a Rio 2016. E, mais, o Sudeste a valorizar o Nordeste, embora o segundo plano seja a estratégica turística massiva de projeção da referida Região anteriormente mencionada. Nesta investida, o estado de Pernambuco, tornou-se o destino escolhido para espetacularizar o forró, o xote e o frevo no encerramento do mega-evento. Não se sabe ao certo o motivo da supervalorização de Pernambuco em detrimento aos demais estados do Nordeste. Talvez a projeção pernambucana seja mais uns dos motivos da Renda de Bilro trazida à cena Olímpica não destacar o Ceará. Muito embora os dois estados nordestinos em questão estejam inseridos no Programa de Ação para o Desenvolvimento do Turismo no Nordeste, ainda assim, são destinos turísticos concorrentes e, o Ceará, dominante no turismo empresarial litorâneo. O Ceará deteve os maiores recursos financeiros oriundos do Programa de Ação para o Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (PRODETUR-NE)/PRODETUR NACIONAL CEARÁ. Além de possuir a localização geográfica estratégica da capital Fortaleza para os investimentos no turismo receptivo e garantia do fluxo internacional de visitantes e “A exemplo de outras cidades litorâneas dos países em desenvolvimento, a elaboração da imagem turística de Fortaleza baseia-se num modelo internacional de desenvolvimento do turismo” (DANTAS, 2002, p. 57).  

Mais importante que mencionar o domínio do Ceará no turismo internacional é referir que este mesmo PRODETUR NACIONAL CEARÁ (responsável pela Rede de Polos de turismo empresarial no litoral Leste e Oeste cearense), proporciona projetos desenvolvimentistas causadores de impactos negativos na Zona Costeira do estado. Nesta mesma faixa encontram-se os Povos Indígenas do Ceará reivindicando as suas Terras Indígenas (TIs). Atualmente, em torno de 11 (onze) territórios tradicionais de Povos Indígenas situados no litoral Leste e Oeste do mesmo estado. Apenas uma Terra Indígena do estado homologada e, as demais apesar da garantia na Constituição Federal da República Federativa do Brasil de 1988, não tiveram os seus processos de demarcação finalizados. Estes Povos Indígenas encontram-se em risco como aqueles desabitados da Vila do Autódromo no Rio de Janeiro. As pressões para as expropriações dos seus territórios tradicionais são constantes, em contraponto, o marketing turístico internacional apoiado pelo poder (público-privado) avança no Nordeste, consequentemente os empreendedores estão interessados em investirem nas áreas das TIs e de outros povos e comunidades tradicionais. O resultado da Rio 2016 alimentará esse agravante!  

O mega-evento desportivo concluiu-se naquela noite carnavalesca (fora de época) no Maracanã comercializando o Nordeste Turístico. Para os envolvidos diretos na organização da Rio 2016 pouco importa saberem das questões fundiárias na mesma Região, basta apreenderem ser sol e praia os produtos turísticos rentáveis para fluxos turísticos do exterior. O samba das famosas Escolas do Sambódromo do Rio de Janeiro conduzido para o cerne do estádio regeu batida de carnaval suficiente para os organizadores da Rio 2016 enterrarem toda e qualquer questão (sócio, cultural, ambiental, política e econômica) latente no país. A beleza dos “jogos olímpicos maravilhosos, da cidade maravilhosa” no pronunciamento televisionado do presidente Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, correspondeu com o ilusionismo apresentado pelo Comitê organizador local. Torço que as Rendeiras, propriamente ditas, nunca resolvam cruzar pontos para criar Renda Rio 2016 em memória. O Brasil precisa mesmo é tecer pontos nevrálgicos e conduzir as questões imunes de doping. Porém, entorpecidas tem dias! A semana real despertou com Aedes Aegypti guardado por alguns dias no chapéu do prefeito do Rio de Janeiro. O Brasil acordou do sonho da festa do desporte. A ressaca imposta será enfrentarmos o pesadelo da crise novamente. O Brasil 2016 aberto para as Olimpíadas com liberdade invejável ao olhar dos de fora e simpatizantes de dentro do país, fecha-se em copas para a população brasileira. Brasília, capital sede ofertada para jogo de futebol olímpico, cerra-se. Nesta semana pós Olimpíadas enquanto o presidente em exercício recebe coligados, também, se imposta “Em discurso durante o lançamento do Plano Agro Mais, voltado para o aumento de eficiência e a redução da burocracia no agronegócio brasileiro”[xvii], hoje, 24/8/2016, véspera da votação do Impeachment. “Agro Mais” para muito menos à população no furacão devastante dos agrotóxicos. O espetáculo, agora, é político. Por ordem superior na capital federal remonta-se o Palco da Segregação – o alambrado extenso na Esplanada dos Ministérios. O infortúnio muro imposto em abril para separar aqueles(as) pró e contra o Impeachment.  As Olimpíadas vigentes no Planalto Central são dos Jogos Políticos Aliados!  

 

Isis Maria Cunha Lustosa

Doutora e Mestre em Geografia

Especialista em Turismo e Meio Ambiente

Pesquisadora Externa -  Laboter/IESA/UFG

Referências

BLANCHETTE, Thaddeus Gregory. Fariseus” e “gringos bons”: masculinidade e turismo sexual em Copacabana. Disponível em: <http://observatoriodaprostituicao.ifcs.ufrj.br/textos/fariseus-v29-corrigido-final.pdf>. Acesso em: 15 ago. 2016.

DANTAS, Eustógio Wanderley Correia. construção da imagem turística de Fortaleza/Ceará. Disponível em: <http://www.mercator.ufc.br/index.php/mercator/article/viewFile/195/161>. Acesso em: 13 jul. 2016.

PISCITELLI, Adriana. El tráfico del deseo: interseccionalidades no marco do turismo sexual no Nordeste do Brasil. Quaderns-e de l'Institut Català d'Antropologia Miscel·lània, Núm. 04, 2004. Disponível em: < http://www.raco.cat/index.php/QuadernseICA/article/view/51433/124519>. Acesso em: 13 jul. 2016.

RIBEIRO, Fernanda Maria Vieira. Turismo sexual na cidade de fortaleza, estado do Ceará, e sua interface com a exploração sexual de crianças e adolescentes e com o tráfico de pessoas. Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X.

TRIGUEIRO, Oswaldo Meira. A espetacularização das culturas populares ou produtos culturais folkmidiáticos. Disponível em: <http://bocc.ubi.pt/pag/trigueiro-osvaldo-espetacularizacao-culturas-populares.html>. Acesso em: 13 jul. 2016.  



[i] Chão Batido. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/grupo-gente-da-terra/1412951/>. Acesso em: 15 ago. 2016

[ii] Música "Se Ligaê" domina comercial do Bradesco para Jogos. Disponível em: <http://propmark.com.br/anunciantes/musica-se-ligae-domina-comercial-do-bradesco-para-jogo>. Acesso em:

[iii] Idem.

[iv] Boletim de informação para publicitários. Disponível: <http://negocios8.redeglobo.com.br/BIP/Lists/BIP%20PDF%20Instance/BIP_609.pdf>. Acesso em: 15 ago. 2016.

[v] Composição do maestro Tom Jobim datada no ano 1972.

[viii] Turistas estrangeiros deixam mais de 2 bilhoes no Brasil durante a Olimpiada. Disponível em:  < http://www.embratur.gov.br/piembratur-new/opencms/salaImprensa/noticias/arquivos/Turistas_estrangeiros_deixam_mais_de_R_2_bilhoes_no_Brasil_durante_a_Olimpiada.html>. Acesso em: 24 ago. 2016.

[ix] Destaque em festa olímpica, Ganhadeiras revivem cultura de Itapuã. Disponível em: http://g1.globo.com/bahia/noticia/2016/08/destaque-em-festa-olimpica-ganhadeiras-revivem-cultura-de-itapua.html. Acesso em: 24 ago. 2016.

[x] BRUSSI, Julia Dias Escobar.  A renda de bilro e a rendeira. Disponível em:  <http://www.acasa.org.br/casamundo/texto/232>. Acesso em: 22 ago. 2016.

[xi] Gringolândia, samba, calor e filtro solar anti-zika: os agitos da Arena de Copa. Disponível em: < http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/volei-de-praia/noticia/2016/08/gringolandia-samba-calor-e-filtro-solar-anti-zika-os-agitos-da-arena-de-copa.html>. Acesso em: 23 ago. 2016.

[xii] Idem.

[xiii] Vila Olímpica. Onde as estrelas se encontram. Disponível em: <http://www.brasil2016.gov.br/pt-br/olimpiadas/instalacoes/vila-olimpica>. Acesso em:  20 ago. 2016.

[xiv] A ordem é samba. Disponível em: <https://www.letras.mus.br/jackson-do-pandeiro/921171/>. Acesso em: 15 ago. 2016.

[xv] Brotos dançantes divertem gringos. BBC: “O que esta acontecendo”? Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/noticia/2016/08/brotos-dancantes-divertem-gringos-bbc-o-que-esta-acontecendo.html>. Acesso em: 22 ago. 2016

[xvi] Idem

[xvii] O papel do governo é investir na eficiência, diz Temer sobre Plano Agro Mais. Disponível em: <http://www2.planalto.gov.br/presidente-em-exercicio/noticias/2016/08/o-papel-do-governo-e-investir-na-eficiencia-diz-temer-sobre-plano-agro-mais>. Acesso em: 24 ago. 2016.

 

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Ficha bibliográfica:

LUSTOSA, Isis Maria Cunha. Encerramento das olimpiadas Rio 2016: Nordeste estilizado ofertado para quem? In: Territorial - Caderno Eletrônico de Textos, Vol.6, n.8, 25 de agosto de 2016. [ISSN 22380-5525].