DESLOCAMENTOS PARA GOIÁS NA MEMÓRIA DE CAMPONESES MINEIROS - Wagner Luciano de Andrade

10/12/2013 12:00

“As pessoas são fontes preciosas, com suas memórias e vida (Sônia London)”.

 

O nome desterro tem significados que podem dimensionar alguns fragmentos culturais do povo brasileiro, figurando desde concepções religiosas até fenômenos históricos e sociológicos. Segundo o dicionário Novo Aurélio – século XXI, o termo “desterro” tem vários significados, caracterizando uma idéia associada ao ato de emigrar, apartar-se, distanciar-se. Esta palavra relaciona-se indiretamente com a realidade de deslocamentos para Goiás, quando várias pessoas deixaram sua terral natal e partiram para outra distante, estranha e desconhecida. Na atualidade pode-se comparar etimologicamente esta palavra aos vários fenômenos sociais da expulsão do homem do campo e consequente êxodo rural, quando milhares de pessoas, em todo o país são levadas obrigatoriamente, a deixarem suas terras de origem, para viver em terras estranhas, na maioria dos casos de incertezas, denotando uma idéia de expulsão e exílio. A história cristã do “desterro” refere-se ao episódio ocorrido logo após o nascimento de Jesus Cristo, quando Herodes temendo perder seus domínios no futuro, ordenou que se matassem todas as crianças menores de dois anos. José, avisado em sonho, transferiu-se com Maria e o menino para o Egito, a fim de protegé-los.  Segundo a tradição cristã, Nossa Senhora do Desterro é muito venerada na Itália como a "Madonna degli Emigrati", padroeira de pessoas obrigadas a deixarem sua pátria, buscando refúgio ou a fim de procurar trabalho no estrangeiro. Culturalmente, ela tem sido uma referência para aqueles que, saudosos da terra natal, buscam encontrar compreensão e simpatia na terra adotiva.

A região da serra da Tapera ou serra do Coelho, área deste estudo localizada na divisa intermunicipal entre os municípios mineiros de Desterro de Entre Rios e Piracema sempre foi marcada por degradações ambientais decorrentes de atividades agropecuárias, sendo o mais comum o desmatamento de remanescentes florestais para plantio de pastagens e para o cultivo de produtos agrícolas. Neste contexto sempre se destacou a agricultura de produção familiar voltada à subsistência, com perspectivas de venda do excedente agrícola, sendo muito comum o plantio no regime de parcerias com outros proprietários. Com o uso extensivo e inadequado, os solos foram dando sinais evidentes de exaustão, em decorrência do uso contínuo e inadequado. Segundo relatos locais, as famílias eram numerosas com muitos filhos, e o uso de métodos tradicionais inadequados associados ao contínuo uso das pequenas extensões de terras agricultáveis, levaram a uma série de dificuldades técnicas e financeiras, forçando-os a se deslocarem em busca de novas perspectivas.

O processo de emigração na divisa municipal tem inicio a partir da década de 1950, quando várias famílias se dirigiram para o estado de Goiás, na expectativa de encontrarem terras férteis, objetivando elevar a produção agrícola, obtendo com isso lucros e melhoria da qualidade de vida. Com a promessa de facilidades em terras goianas, onde poderiam plantar no regime de parceiro com os proprietários de terras, famílias inteiras se mudaram para o estado, sendo que muitas permaneceram por lá e outras com o insucesso da empreitada, acabaram por retornarem à terra natal, como o caso do aposentado A., 77 anos, viúvo, morador da localidade piracemense de Geada.  As principais cidades goianas que receberam desterrenses segundo relatos locais de familiares que permaneceram no município foram Abadiânia, Anápolis, Corumbá de Goiás, Heitoraí, Itapaci, Itapuranga, Petrolina de Goiás, Pirenópolis, Porangatú, São Francisco de Goiás e Uruana. A partir da década de 1960, uma mineradora se instalou na Serra do Coelho, interessada em explorar minério-de-ferro existente na mesma, próxima às localidades rurais de Tapera, Morro Grande, Mumbeca e Barro Branco. O processo foi protocolado em 1961 no DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral, e não há dados oficiais referentes ao período de funcionamento. O que se sabe é que a mineração exerceu forte atração sobre os moradores locais e vários jovens basearam suas vidas na expectativa de conseguirem um emprego nas atividades minerárias, podendo desta forma permanecer junto aos seus familiares. Ao encerramento das atividades, devido à inviabilidade comercial de extração na serra, vários jovens transferir residência para Belo Horizonte ou São Paulo, objetivando fixação e emprego, fato que se intensificou principalmente a partir da década de 1970, para a capital paulista e entorno metropolitano. No próximo sub-capítulo dedicou-se a uma breve análise do que foi exposto pelos sete entrevistados, uma vez que problemas técnicos que ocasionaram a não gravação das falas, não permitiu que elas fossem transcritas na íntegra e adicionadas à reflexão.

Uma série de fatores ditados pela lógica da expansão da fronteira agrícola no Centro Oeste e sua submissão aos ditames capitalistas do Sudeste brasileiro determinaram o deslocamento e a fixação de mineiros principalmente no estado de Goiás. Dentre eles pode se destacar a chegada da Estrada de Ferro Goyaz, a construção de Goiânia e Brasília e a consolidação de um eixo entre ambas, a BR 153 (Rodovia Belém-Brasília) e a CANG (Colônia Agricola Nacional de Goiás), fatos que ocasionaram a fixação de mineiros, e no caso deste estudo, migrantes originários do município mineiro de Desterro de Entre Rios nas mais diferentes regiões do estado, o qual é dividido em cinco mesorregiões: Norte, Nordeste, Leste, Centro e Sul goianos. Algumas dessas regiões goianas receberam migrantes originários do entorno da serra da Tapera como Abadiânia, Corumbá de Goiás e Pirenópolis no leste, Anápolis, Itapaci, Itapuranga, Petrolina de Goiás, São Francisco de Goiás e Uruana no centro e Porangatú, no norte. Embora não haja confirmações há ainda evidências de desterrenses em outras cidades como Uruaçu no norte, bem como no estado do Tocantins. Para se listar algumas das cidades goianas que receberam desterrenses esta divisão oficial de Goiás será adotada objetivando a compreensão da espacialização desses mineiros no estado. Atualmente várias pessoas residentes na região de Desterro, também têm histórias parecidas como a aposentada N., de 72 anos, residente no Bom Retiro de Trás, que teve inúmeros parentes que foram embora para Goiás, dentre os quais, sua irmã, que hoje vive em Anápolis. 

Para se entender o contexto de deslocamentos de desterrenses para Goiás, faz-se necessário uma análise não só do cenário político-econômico  naquela época, como da realidade cultural existente no campo naqueles tempos. Em meados do século XX, o mundo passou por reconfigurações que o tornaram mais globalizado, tendo como principal mecanismo, a orientação antropocêntrica, racional e tecnicista. Principalmente na era getulista, onde o Brasil começou o priorizar o “desenvolvimento a qualquer custo”, a realidade rural ainda se caracterizava e se diferenciava pelas suas peculiaridades e especificidades (alimentação, educação, hábitos, higienização, modos de lazer e entretenimento, moradia, religiosidade, saúde e segurança, trabalho e renda, no transporte e vestuário), fazendo das paisagens rurais, especiais e únicas num mundo cada vez mais urbano-industrial e capitalista.  Neste sentido, nas décadas de 1930 a 1960, passar roupas com ferro de brasa, fazer sabão, utilizar fogão à lenha e luz de querosene, utilizar forno de cupim, o paiol de milho, o moinho d´água, o engenho de cana, o carro de boi, a água da bica, as vassouras de alecrim do campo e de capim do brejo, fazer casas de pau-a-pique, com chão de barro, o cuidado com a roça (preparo, plantio, capina, aragem, colheita), os colchões de palha, os travesseiros de flor de marcela, o uso da cuia (cabaça), os brinquedos improvisados, a música sertaneja, ainda eram os fatores que diferenciavam a roça da cidade, e o Brasil Rural de um novo país que passava a se estruturar no contexto internacional.

Apesar das especificidades do modo de vida rural, as dificuldades também eram grandes, como por exemplo, a falta de acesso a tratamentos de saúde  e a uma educação satisfatória, bem como a exaustão dos solos devido ao uso contínuo e indevido. Esta exaustão trazia consigo um conjunto de incertezas, dentre as quais a ameaça da fome, fazendo com que as pessoas sonhassem com novas perspectivas de vida. Numa época, onde esta tipologia cultural de caráter rural ainda era muito comum, iniciou-se um processo intenso de deslocamentos populacionais de migrantes mineiros para o estado de Goiás, dentre os quais inúmeros desterrenses. Várias pessoas participaram direta e indiretamente deste processo, como a aposentada, L., de 86 anos, residente na Estiva, cujos pais, tio e primos se mudaram para Itapuranga e a doméstica, H., de 36 anos, moradora do Barro Branco, que morou certo tempo em Itapaci, onde se casou com um parente goiano, tendo retornado para seu local de origem com sua única filha. Por diretamente afetado pode se entender aqueles que se mudaram para terras goianas e que voltaram ou não e por indiretamente afetado, denominam-se aqueles que aqui ficaram e continuaram a rotina de suas vidas, embora alguns parentes próximos tenham se mudado.

A tradição oral relata que esses fluxos ocorreram principalmente após emancipação de Desterro, anteriormente pertencente ao vizinho João Ribeiro (atual Entre Rios de Minas), quando começou uma série de partida de famílias inteiras, incluindo pais, mães, irmãos, avós, tios, primos. Neste contexto se inserem várias pessoas, como a aposentada, F., de 74 anos, residente em Pedra-de-cevar, que teve seu pai e mãe, bem como alguns irmãos, transferidos, para Três Ranchos, às margens da BR-163 (Belém-Brasília), em Pirenópolis, sendo seu esposo, o aposentado, O., de 76 anos, também com irmãos fixados na mesma região. Estes deslocamentos seriam muito diferentes dos fluxos posteriores para São Paulo e Belo Horizonte, quando migravam em sua maioria apenas pessoas jovens e solteiras. Neste contexto, o espaço geográfico local foi reconfigurado “de uma hora para outra”, com a saída contínua de moradores e uma realidade de casas que eram totalmente desocupadas. Posteriormente aquelas que não foram desmanchadas, foram reconstruídas ou reocupadas pelos familiares que ficaram, e localidades inteiras se modificaram rapidamente como o Bom Retiro de Trás, no município de Piracema, distante apenas 13 km de Desterro, que quase se esvaziou por inteiro, restando em torno de 14 casas vazias, cujas famílias foram para Goiás. Mas porque o pessoal teria se deslocado em massa para outra realidade bem diferente da que estavam acostumados, passando a viver num estado totalmente distante e desconhecido? Segundo os relatos daqueles que ficaram a fertilidade de terras goianas, foi o principal fator de atração, fazendo com que inúmeras pessoas enfrentassem mais de 1.000 km de distância em busca de novas perspectivas de vida. Apenas precisavam de  alguém conhecido, que lá já residiam como referencia para intermediar a fixação. Assim terras famosas do Vale do Rio Corumbá, nas regiões de Anápolis e entorno do DF (Abadiânia, Anápolis, Corumbá, Petrolina e São Francisco) e terras do Vale do São Patrício, nas regiões de Ceres e Porangatú (Itapaci, Itapuranga, Porangatú e Uruana) foram sendo gradativamente ocupadas por pessoas originárias da região de Desterro, num período que provavelmente vai de 1950 a 1970. Algumas localidades goianas até tiveram seus nomes mudados devido à fixação de mineiros como a Serra do Misael, divisa intermunicipal entre Anápolis e Pirenópolis, que passou a ser conhecida como a Serra dos Mineiros. 

Mas como estes boatos de fertilidade dos solos e de fartura da produção agrícola goiana teriam chegado a esta região de Minas Gerais? O aposentado A., de 77 anos, residente na Geada, relata que o feijão foi o principal elemento que criou esta expectativa de mudança na população local. Segundo ele que morou sete anos (1957-1963) em Souzânia, distrito de Anápolis, local onde nasceram quatro de seus 08 filhos, na zona rural de Desterro houve considerável declínio da produção agrícola, fato que ameaçava a integridade das inúmeras famílias, compostas por uma média de oito a doze filhos e, curiosamente, contribuiu para que o feijão se tornasse um alimento raro nas refeições diárias. Quem tinha dinheiro comprava o famoso feijão goiano nas vendas locais e quem não tinha ficava somente na vontade, pois não se produzia mais este gênero alimentício nas culturas da região, em decorrência da exaustão dos solos. O feijão goiano trazia consigo a fama de um rincão no Brasil Central, onde o solo era rico e onde também havia fartura de milho e arroz, dentre outros gêneros. Em busca desta riqueza e abundância e também de melhoria na qualidade de vida, alguns pioneiros se enveredaram para estas terras estranhas, das quais mandavam notícias fabulosas que encantavam os que aqui ainda estavam. Com isto estaria dada a largada rumo aos sertões de Goiás, que acabou por ser tornar uma febre e revolucionar a região. Uma série de mudanças para aquele estado foi empreendida e inúmeros caminhões partiram levando famílias e pertences. Um caminhão, passando por Crucilândia, Itaguara e Itaúna, gastava, em média, nove dias em estradas precárias para chegar a Goiás. Neste período contínuo de mudanças para Goiás, os caminhões retornavam com sacos de feijão para venda em Desterro e região. Com o advento do transporte ferroviário de passageiros, a “máquina”, como os desterrenses chamavam o trem-de-ferro, encurtaria em quatro dias a distância entre as estações ferroviárias de Itaúna e Anápolis. Posteriormente, com a conclusão da BR 040 ligando Brasília a Belo Horizonte, facilitou-se a comunicação e o fluxo entre estas regiões e muitos podiam utilizar os primeiros ônibus que faziam esta ligação.

Segundo o aposentado V., de 75 anos, morador do Mumbeca, que morou no município de São Francisco de Goiás durante dois anos (1968-1970), tendo retornado a Desterro onde atualmente vive com a família, aqueles que se fixaram em terras goianas, iniciaram suas vidas como agregados em terras alheias, trabalhando num regime de parceria como os proprietários. As primeiras adaptações eram as terras aplainadas do Planalto Central, diferente dos morros e serras a que estavam acostumados e o calor excessivo. Para a moradora da Tapera, a aposentada C., de 62 anos, que teve três tias maternas que se mudaram para lá e seu esposo, o aposentado G., de 68 anos, também teve vários tios maternos, que se mudaram e com os quais perdeu totalmente o contato, o pior era a separação e a distância. Esta separação é inclusive relata como sinônimo de desespero, angústia e sofrimento. Como a mudança deixou marcas profundas no campo sentimental, tanto de quem foi como de quem ficou cartas e fotos, encaminhadas via postal amenizavam a distância e a dor da separação. Quem partia, levava saudades de seus entes que ficavam e os que permaneceram sofriam com as incertezas de um lugar longe e distante. Algumas pessoas que moravam em Goiás puderam retornar uma única vez ou mais vezes à terra natal e alguns moradores da região ocasionalmente visitaram seus parentes residentes em Goiás, mas algumas famílias perderam totalmente o contato com seus parentes mineiros. Por outro lado, a nova terra habitada tinha certa fama de “território sem lei”, resultante do choque cultural entre mineiros, piauienses, baianos e maranhenses, que por terem diferentes concepções e posturas acabavam por gerar inúmeros conflitos. Com o passar dos anos, alguns dos pioneiros faleceram e seus descendentes fixaram nas grandes cidades como Anápolis e Brasília e outros acabaram se mudando até para São Paulo. Se naquela época, os solos férteis eram motivo de atração para pequenos agricultores, atualmente em Desterro, diversas técnicas e recursos minimizam os efeitos de exaustão dos solos, como a aragem, os fertilizantes, o uso de calcário e esterco. Atualmente, a fertilidade das terras goianas já não mais chama a atenção dos desterrenses, e com o passar do tempo os relatos de ligação entre a região e Goiás se perdem, com o falecimento daqueles que detêm estas informações. Por outro lado, cartas e fotos são rasgadas ou queimadas como rompimento com o passado, por pessoas novas que desconhecem a importância destas histórias para a contextualização histórico-geográfica do município.

 

* Este texto é parte da monografia intitulada "Deslocamentos para Goiás na memória de moradores rurais do entorno da Serra da Tapera", defendira em 2007 junto ao Curso de Geografia e Análise Ambiental do Centro Universitário de Belo Horizonte. Para mais informações: http://www.descubraminas.com.br/Upload/Biblioteca/0000303.pdf

 

Vagner Luciano de Andrade

Bacharel/licenciado em Geografia e Análise Ambiental, mestrando em Direção e Consultoria Turística
(área de concentração em Turismo Sustentável) pela Universidad Europea Miguel de Cervantes (Espanha).
E-mail: trezeagosto@yahoo.com.br

 

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Ficha bibliográfica:
 
ANDRADE, Vagner Luciano de. Deslocamentos para Goiás na memória de camponeses mineiros. In: Territorial - Caderno Eletrônico de Textos, Vol.3, n.5, 10 de dezembro de 2013. [ISSN 22380-5525].