CARTA AOS ESTUDANTES ESCRITA EM 30 DE JUNHO DE 2036 – Felipe Gusmão Carvalho Andrade

18/01/2017 22:51

 

Caros estudantes,

Trago uma mensagem do futuro sobre o avanço conservador que foi imposto sobre a sociedade e seus obstáculos a serem enfrentados. Não apenas enfrentados, como também possíveis de serem revertidos no presente momento em que escrevo essa carta, no qual descrevo brevemente sobre o futuro desalentador que se concretizou, e depois realizo alguns apontamentos para mudarmos a história humana no sentido de construir um novo futuro, que ainda está por se realizar.

No pouco tempo que passou nesses últimos e esparsos 20 anos, a exploração na sociedade tem ampliado cada vez mais o controle e a repressão para todos os setores da população sob um estado autoritário. As escolas, em sua maioria, privatizadas, não mais permitem o pensamento crítico. A censura está em todos os lugares, nas câmeras distribuídas nas salas de aulas, e deixadas aos agentes do governo que cuidam da vigilância, anotando cada passo dado pelos docentes em suas atividades. Os livros de humanidades foram queimados ou apreendidos pelos agentes incineradores, rotulados sob uma suposta propaganda de “comunismo cultural”; eles não são mais permitidos. As universidades públicas se tornaram polos industriais de pesquisa para as empresas transnacionais, produzindo apenas técnicos especializados nas áreas que produzem tecnologia e armamentos para as guerras entre as nações que vêm acontecendo. Os cursos de humanidades (segundo o governo, ineficientes) foram descartados e relegados a uma prática de um saber que qualquer pessoa pode exercer.

E os estudantes, ah, pobres estudantes! Começam desde cedo a aprenderem as normas dos colégios militares, separados em salas que distinguem mulheres dos homens, tratados com práticas repressivas, coercitivas e punitivas. A meta colocada é sempre a mesma: serem os melhores, os vencedores; logo depois, são expostos em outdoors luminosos distribuídos nas ruas com o slogan: “orgulho da nação”. Treinados a competirem uns com os outros, não importa o quão isso possa ser prejudicial. Também sofrem preconceitos por conta da sexualidade considerada “anormal” (setores dos grupos cristãos neopentecostais formaram uma burocracia à parte no aparato estatal e retrocederam os direitos às “minorias”), a cor da pele explicita o racismo e a censura aberta também se impõe aos alunos mais “ousados” – dizem que são aqueles “questionadores”. Não por acaso, as taxas de suicídio e a depressão têm aumentado e começado cada vez mais cedo na população jovem privilegiada, enquanto naqueles jovens mais pobres e explorados, resta-lhes o encarceramento em prisões desde cedo devido à nova política de punição penal.

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Assim, o futuro parece ter encontrado o fim das esperanças de um mundo melhor. Por isso, mando esse breve texto como um alerta de um futuro que ainda não aconteceu. Explico melhor. Através do desenvolvimento de pesquisas que ainda são possíveis por grupos marginais de pessoas que ousam em desenvolver uma teoria revolucionária fora da censura e da repressão estatal, conseguimos desenvolver uma cápsula do tempo, que permite mandar mensagens do futuro para o passado, o que cria uma nova linha temporal, permitindo uma nova chance de construirmos uma nova sociedade para a história humana. Isto é, poderemos anular todo esse desenvolvimento histórico que tenha ocorrido desde então. Caso possamos mandar essa mensagem para o ano de 2016, todo esse tempo decorrido até então, em 2036, será anulado e poderemos reiniciar uma nova linha temporal na história humana. Não resta muito a explicar sobre isso, o que importa agora é a possibilidade de enviarmos essa mensagem, que, no entanto, não pode ser muito longa devido à cápsula ser muito pequena para guardar muitas informações.

Segue o aviso na cápsula com a mensagem que chegará a algum estudante qualquer. Espero que a mensagem possa ser espalhada e auxilie o movimento estudantil em suas tarefas com as novas possibilidades promissoras no ano que conseguimos abrir uma brecha para enviar a cápsula.

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Ao movimento estudantil, restam poucas alternativas sobre a sociedade futura que por vocês será trilhada. Não terão muito a escolher em suas vidas futuras quando serão adultos. Começarão a procurar um trabalho (escasso) e provavelmente criarão as suas filhas, legados a um mundo devastado ambientalmente, desertificado e desumanizado. O que tem acontecido com a educação é o início de momentos mais amplos de um capitalismo mais devastador em outras áreas da vida social. Portanto, deverão começar a refletir e agir sobre os momentos de tensão política que estarão a irromper nesse momento. Restarão poucas alternativas nos momentos turbulentos que estarão por vir. Assim, a mobilização deve colocar como princípio a ocupação de cada espaço da universidade, local de estudo e a mobilização de outros grupos sociais e classes sociais exploradas para uma resistência imediata contra as medidas sociais que visam a precarização do ensino público, entre outras. A luta realmente será difícil, pois o momento em que o capitalismo atravessa está começando a romper o seu ciclo de acumulação para crises mais drásticas – um estado autoritário, relações de trabalho superexploradoras e guerras bélicas internacionais.

Sabemos que todo movimento social é permeado de contradições, divergências e interesses incongruentes. Dentro dele mesmo, a ampla maioria se opõe; não apenas se opõe como tenta na medida do possível desmobilizar cada momento da luta. No entanto, os debates, atividades culturais, aulas públicas, intervenções nos espaços de moradia, bairro e familiar, entre tantas outras atividades que ocorrem em suas ocupações, servirão como instrumento de mobilização fundamental para acumularem experiências nas próximas lutas que acontecerão. Será necessário desestabilizar o espaço escolar. Logo, romper com os estudos, disciplinas e rígida hierarquia docente que vocês certamente presenciam a cada dia nesse ambiente em que passam a maior parte de seu tempo: escola técnica, ensino médio, fundamental e universidade. A verdade é que todos nós somos estudantes nessa sociedade em que vivemos. Afinal, quem educa os educadores? Desde já precisarão constituir relações igualitárias, horizontais e auto-organizadas para enfrentarem os desafios impostos pela repressão. Não precisarão mais de intelectuais, burocratas e nem mesmo das instituições (escolas, hospitais, universidades etc.) que só representam os interesses do capitalismo decadente. Devem ter a consciência de que os sindicatos não negociam nem mesmo a força de trabalho; simplesmente são máquinas repressivas a serviço do aparato estatal, que impõe autoritariamente aos trabalhadores e trabalhadoras (a maioria da sociedade) aquilo que só lhes interessa: acumular riqueza através da exploração humana.

Também é necessário resistir e enfrentar todas as adversidades dentro do movimento, entre estudantes que sabotam, docentes que atrapalham, a polícia que reprime, partidos de “esquerda” e entidades estudantis que cooptam e isolam a luta, burocratas que mentem, entre outros problemas que constituem uma difícil tarefa, que a cada dia parecerá realmente mais distante e difícil. No entanto, a transformação da sociedade deverá ser radical, não importa o quão profundo isso seja.  E com ela sempre deverão manter a coerência entre os meios e os fins desejados. Se quiserem uma sociedade livre, igualitária e verdadeiramente auto-organizada socialmente, e não mais o totalitarismo que pode se realizar novamente, os meios necessários para isso devem ser construídos a partir do presente momento em que receberem o comunicado. Não é de maneira nenhuma legítimo a burocracia sindical continuar a decidir entre quatro paredes, de maneira fechada e isolada, ou mesmo conduzir as lutas sociais que estarão por vir, sem a participação daqueles que mais interessam: movimento estudantil e classe trabalhadora. Nem mesmo intelectuais que vos ensinam continuarem fechados em suas salas rodeados por livros professando “teorias” que nada dizem respeito à sua realidade. É necessário mudar essa “realidade” completamente apartada da verdadeira realidade que a maioria das pessoas exploradas vive dentro da sociedade.

Tenham consciência de que a sociedade tão somente espera que vocês, jovens estudantes, sejam a futura força de trabalho qualificada no mercado capitalista, futuros intelectuais, burocratas servos da máquina estatal; desempregados vítimas da violência da polícia; futuros reprodutores das relações mercantis da sociedade capitalista; futuros conformados com a realidade existente; mas no meio de tudo isso, ainda resplandece ao movimento o potencial de serem revolucionários e contribuírem com a transformação dessa realidade. Não estou dizendo aqui que o movimento estudantil é revolucionário em essência, ou desmerecer dessa maneira outros setores da juventude, e até mesmo, a aliança com a classe fundamental (a única produtora de mais-valor), a classe proletária. O problema é que dentro dos momentos de tensão política, será dado a vocês, movimento estudantil, a chance de fazerem algo diferente, mesmo que no final seja o prenúncio de uma derrota, com as propostas de austeridade do aparato estatal capitalista sendo aprovados um a um. Os momentos que vêm ocorrendo com as ocupações serão apenas o início, uma pequena ruptura mínima na rocha sólida do modo de produção capitalista, um pequeno arranhão e brecha que estarão encontrando para fazerem a longa revolução. Esta não acontecerá da noite para o dia, nem de um ano para o outro. A mudança será um projeto que precisará ser consolidado aos poucos, e, portanto, será preciso auto-formação, auto-organização e fundamentalmente um projeto revolucionário contra tudo o que pertence a essa sociedade capitalista.

Aos poucos o horizonte apontado por esse projeto começará a avançar pouco a pouco para a destruição da universidade, para assim construírem um novo conhecimento; destruírem as instituições autoritárias e hierarquizadas que dizem representar as pessoas, tais como partidos, sindicatos e entidades estudantis, para assim forjarem relações igualitárias; destruírem o estado capitalista, não apenas deixando que continue a se perpetuar aos poucos o fim dos direitos sociais básicos conquistados historicamente, e legada de geração a geração para poderem retirá-los em meses a serviço da classe dominante e suas classes auxiliares; e finalmente destruírem as ilusões que não permitem a consciência da exploração e miséria que “cega” as pessoas da realidade ao redor, escondida sob as falsas sensações das drogas, consumismo, misticismos e entretenimento fútil.

Tudo isso deverá se refletir em mais mobilização estudantil dentro dos espaços de estudos, cada vez mais inserção das estudantes na participação e decisão dos mesmos, servindo como um anúncio de um novo futuro, em que finalmente poderão controlar suas vidas, desenvolver relações autênticas e suas potencialidades artísticas, intelectuais, criativas e a felicidade - sensação rara nessa sociedade que finalmente será a regra na vida das pessoas, e não mais a tristeza, depressão e a infelicidade. Contudo, nada mais restará a vocês do que conduzirem, decidirem e debaterem os rumos de suas vidas de uma maneira radicalmente diferente. Instaurarem novas relações sociais igualitárias, através de novas alternativas para um conhecimento que cada vez mais se aproxime com a realidade das pessoas, e cada vez mais se distancie da neutralidade e parcimônia das ideologias professadas pelos intelectuais, pretensamente arrogante e autoritário sobre as classes pobres da sociedade. É nesse momento presente e naqueles que se anunciam no futuro próximo que poderão fazer isso – e precisarão pensar nesse projeto desde já. É realmente difícil, longo e um árduo trabalho que terão pela frente, pois sabemos que carregamos em cada uma de nós as marcas dessa sociedade, os equívocos, os problemas, os limites e dificuldades como qualquer ser humano; ao mesmo tempo, nada nos restará a não ser sonhar e lutar por um futuro melhor (e não mais esse futuro cruel que pode se realizar novamente). É através da auto-organização, enfrentamento e da utopia concreta (projeto revolucionário), que poderão criar condições para um futuro distinto daquele que se realizou, e onde poderão viver um mundo melhor em que seremos humanamente livres e iguais, assim como o conhecimento que estaremos propondo ensinar às gerações futuras.

Com forte abraço de nossos sentimentos de esperança que nunca deixarão de cessar.

Grupo Utopia.

 

Felipe Gusmão Carvalho Andrade

Graduando em Ciências Sociais pela UFG

woxipo@hotmail.com