BREVES NOTAS SOBRE O MATERIALISMO HISTÓRICO-GEOGRÁFICO-DIALÉTICO - Thiago Canettieri

10/09/2015 12:00

 

Introdução

A perspectiva do materialismo histórico-geográfico, descrito e desenvolvido por Harvey (1984, 2006, 2011), pode oferecer importante subsídio para compreensão da realidade enquanto engendrada a uma lógica que se reproduz através da práxis. Essa linha de análise fornece elementos para o entendimento da forma e do conteúdo que se observa no espaço, no tempo e no ser social. Harvey (1984) em seu A Materialist Manifesto, apresenta as tarefas e os avanços que tal abordagem pode oferecer aos geógrafos.

1) Build a popular geography, free from prejudice but reflective of real conflicts and contradictions, capable also of opening new dhannels for communication and common understanding. 2) Create na applied people geography unbeholden to narrow or powerful special interests, but broadly democratic in its conception. 3) Accept a dual methodological commitment to scientific integrity and non-neutrality. 4) Integrate geographical sensitivites into general social theories emanating from the historical materialista tradition. 5) Define a political Project that sees the transition from capitalism to socialism in histórico-geographical terms.

Pleakhanov (1957 apud SODRE, 1968)[1] considera o materialismo histórico (acrescenta-se aqui o geográfico) como um importante método científico que permite vislumbrar o processo de constante modificação da realidade pelo trabalho. Dessa forma, a escolha por tal método se justifica pela sua capacidade de desvelamento dialético da realidade, considerando conflitos e contradições, produzindo uma geografia democrática e que reconhece não-neutra, ou seja, uma geografia que ocupe um lugar na sociedade.

O objetivo desse trabalho constitui em uma breve discussão da proposta de David Harvey (1980, 1984, 2006, 2011) discutida pelo autor em diversos textos do Materialismo Histórico-Geográfico-Dialético. Assim, segue o texto a partir da divisão dos termos que constroem esse conceito, analisando-os separadamente para, então em um movimento de retorno à “totalidade” compreende-lo de maneira mais profunda. Essa é uma necessidade importante para permitir a compreensão dessa proposta metodológica que contribui, imensamente para a análise da realidade a partir do entendimento das implicações dessa abordagem.

 

O materialismo histórico-geográfico-dialético

A dialética é, segundo Clapp (2009), “the philosophy of Motion”. O método de análise dialética é baseado no movimento e suas contradições inerentes do processo. Hegel (2003, p.110) afirma: “Damos o nome de dialética ao maior movimento da razão, em que suas aparências absolutas passam de uma para outra.” Segundo Harvey (2010) que essa é a concepção central da versão marxiana da dialética, que promove a compreensão dos fenômenos de modo relacional a fim de que a integridade da relação entre o todo e a parte seja sempre mantida. Vislumbra-se, de tal modo, a totalidade social.

Lefebvre (1949) realizou um extenso trabalho de reflexão sobre o método dialético. Segundo ele a lógica formal “[...] étudie des transformations purement analytique, des inférences dans lesquelles la pensée n’a affaire qu’à elle-même.” Assim, é revelado que a lógica formal se dedica a uma parte da realidade já pensada. Além disso, diz o autor: “Dans la logique formelle, il semble que le mouvement de la pensée soit une chose à part qui n’a rien à faire avec l’objet que l’on pense”. O pensamento dialético oferece, segundo Lefebvre (1949), a possibilidade de situar o próprio pensamento em conjunto com o assunto. O pensamento dialético oferece a consciência de uma unidade infinitamente rica de pensamento e realidade material, de forma e de conteúdo. No entanto, a unidade deve conquistar e determinar para além das condições unilaterais que são contraditórias.

Assim, pode-se resumir o percurso dialético em três etapas. Uma tese sobre determinado elemento em que se revela sua contradição, a antítese. Da relação entre ambas se produz a síntese. No entanto, esse percurso hegeliano é, por diversas vezes, suprimido em Marx (2013). David Harvey (2011) afirma que a dialética não necessariamente deve culminar na síntese. A contradição pode ser alocada em um nível superior, ainda existindo.

As raízes desse pensamento estão juntamente com os antigos pensadores gregos que começaram a perceber a natureza na sua integridade, suas conexões, de forma dialética. Um dos grandes filósofos gregos antigos foi Heráclito que se dedicou a dialética, afirmando que tudo estava em constante movimento. Mais tarde, tem-se a dialética trabalhada por Hegel, em que retoma os elementos dos gregos, mas se trata, em especial do movimento do “espírito”, ou seja, é uma dialética idealista. Pouco depois é Marx que se dedica à dialética, mas substancialmente diferente da hegeliana. Marx desenvolve a dialética materialista, que considera a produção da vida como matéria. (LEFEBVRE, 1949).

É, a partir dessa diferença que se pode interpretar a separação de Marx (2013) e Hegel (2013). Para tanto, remeto a conhecida passagem no posfácio da segunda edição d’O Capital:

Meu método dialético, em seus fundamentos, não é apenas diferente do método hegeliano, mas exatamente seu oposto. Para Hegel, o processo de pensamento, que ele, sob o nome de Ideia, chega mesmo a transformar num sujeito autônomo, é o demiurgo do processo efetivo, o qual constitui apenas a manifestação externa do primeiro. Para mim, ao contrário o ideal não é mais do que o material, transposto e traduzido na cabeça do homem [...]. A mistificação que a dialética sofre nas mãos de Hegel não impede em absoluto que ele tenha sido o primeiro a expor, de modo amplo e consciente, suas formas gerais de movimento [allgemeinen Bewegungsformen]. Nele, ela se encontra de cabeça para baixo. É preciso desvirá-la, a fim de descobrir o cerne racional dentro do invólucro místico. (MARX, 2013, p.83)

As colocações de Marx fornecem um topos clássico para o julgamento da dialética hegeliana e justifica sua adjetivação à dialética como materialista [materialistischen]. O que Marx trouxe de original foi uma análise dialética das relações sociais e econômicas (as bases materiais da sociedade) que formavam uma estrutura que explicava fatos históricos. Com essa ressalva, Marx (2013) passa a buscar operar a dialética hegeliana para coloca-la desvirada a partir da crítica dirigida ao sistema idealista hegeliano se apropriando da própria lógica dialética. Ela é o núcleo racional do materialismo de Marx e Engels (2007), como encontrado, principalmente, em A ideologia alemã, mas, também, em suas outras obras. Não é à toa que Marx (2013; 2011) precisou da dialética hegeliana para formular a sua crítica. A inovação crucial na obra de Marx (2010; 2011; 2013) ocorre em meados da década de 1850 quando, depois do fracasso das revoluções de 1848, ele começou a reler Hegel.  Inclusive, a dialética hegeliana aparece de maneira especial n’O Capital (MARX, 2013) de maneira ambígua, oscilando entre interpretá-la como uma expressão da lógica do capital e interpretá-la como um modelo para o processo revolucionário de emancipação (ZIZEK, 2013). Essa separação é derivada, sobretudo, da opção de uma antropologia filosófica de cada autor a partir da diferença na colocação dos termos na lógica dialética de cada um. Se para Hegel (2003) o sujeito é derivado da Razão, para Marx e Engels (2007) o sujeito é fruto das condições materiais através das quais se reproduz (o conjunto das relações sociais de produção e das forças produtivas). Portanto, a diferença específica entre Hegel e Marx é que este dá primado ao objeto sobre a consciência, ao contrário daquele, e dessa forma a “inspiração dialética” será as condições materiais de existência.

O método dialético desenvolvido por Marx (2013) se faz através da análise das contradições da realidade material (que é espacial e temporal), mas sem desconsiderar as contradições das representações, dos autores e das ideias. O materialismo como o que será considerado é proposto por Marx e Engels (1977, p.11) e pressupõem que para a realização da vida humana é necessário uma “base material”. Nas palavras de Marx (2013, p.301): “O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual”. Assim, difere-se da dialética espiritual hegeliana e também do materialismo feuerbachiano. Para Marx, Engels e os herdeiros dessa linha de pensamento a prioridade ontológica da dialética reside na práxis. Assim, Lukacs (2012, p.72) explica que o ser social no pensamento marxista “[...] repousa primaria e irrevogavelmente na práxis.” A práxis é portanto concebida como ponto central ontológico do ser-homem do homem.

Nas palavras de Engels (1877 apud Clapp, 2009)[2]: Dialectics is nothing more than the science of the general laws, of motion and development, of nature, human society and thought”. De tal maneira o processo dialético fornece substância a análise da realidade, pois ela é contraditória e fugaz. Seria ingenuidade desejar que a dialética desnudasse o mundo em sua completude, mas, como Harvey (1984) aponta, ela contribui em grande medida em desvendar, ao menos uma parte e, em especial, a realidade social contemporânea. Ainda, lembra Lefebvre (1949) que a lógica dialética não acaba com a estatística, ou mesmo com a identidade delimitada das coisas: na verdade garante a elas um conteúdo.

O filósofo e sociólogo Nikolai Bukharin (2012) ao discutir a teoria do materialismo dialético lembra que não deve ser descartado os fenômenos “psychical”, ou metafísifcos; como por exemplo a mente, a vontade, o conhecimento não possuem uma existência material (“cannot be felt, don’t occupy space, and cannot be directly measured”). O autor destaca que esses fenômenos existem tanto quanto os fenômenos materais e não é proposta do materialismo dialético negligencia-los. A importância está em uma consideração causal que Bukharin (2012, p.215) se questiona: “Which comes first; wich is the basis does matter producce min dor does mind produces matter?”

Dessa forma, adotar o materialismo dialético assume-se como causa primeira a matéria; o primum agens (ENGELS, 2013). Aceita-se, portanto, três importantes pressupostos: 1) O homem como parte da existência material da natureza; 2) a “mente” só pode existir quando matéria já é organizada de alguma forma; 3) A dependência do pensamento do “espírito” com a vida “material”.

Nesse sentido, Bukharin lembra que “The material production and its means are the foundation of human society”. Sem essa base é impossível a existência de uma consciência, de uma cultura ou até de um pensamento.

O termo histórico é, segundo Konstantinov (1961), uma extensão do materialismo dialético à interpretação da sociedade. Dessa maneira, se passa a considerar o ser social como primeiro e, a consciência social, derivada dela, unindo-o a uma perspectiva relativista, ou melhor, contextual que o processo histórico conduz as sociedades.

Esta concepção da história consiste, pois, em expor o processo real de produção, partindo para isso, da produção material da vida imediata e em conceber a forma de intercâmbio correspondente a este modo de produção e por ele engendrada, quer dizer, a sociedade civil, em suas diferentes fases, como o fundamento de toda a História, apresentando-a em sua ação, enquanto Estado, e explicando, à base disso, todos os diversos produtos teóricos e formas de consciência.  (MARX; ENGELS, 1996, p.20)

Ao considerar o histórico em tal concepção, no bojo do método materialista dialético, permitindo vislumbrar o processo de evolução da humanidade em sua totalidade, considerando suas contradições inerentes e como elas são modificadas ou cristalizadas ao longo do tempo. Nas palavras de Lukacs (2012, p.70): ”O processo da História é causal, é múltiplo, nunca unilateral, simplesmente retilíneo, mas sempre em uma tendência evolutiva por interações e ninteraçãoex reais de complexos sempre ativos.”

Rosental e Straks (1958 apud SODRE, 1968, p.70)[3] afirmam: “Por histórico entende-se a realidade objetiva, que existe independente da consciência do sujeito cognoscente; a realidade que se desenvolve historicamente e acha-se em estado constante de mudança.

Dessa maneira se percebe que o materialismo histórico não está a preconizar a História como única ciência. Moraes e Costa (1993) deixam claro que a intenção é demonstrar o caráter contextual da práxis, da produção da realidade. Dessa maneira, ao considerar a contextualização no tempo, os autores destacam também, a importância de contextualizar no espaço. Os geógrafos tenderam a distanciar, durante longo tempo, da teoria marxista por os autores não esclarecem o caráter espacial de sua análise. No entanto, essa aproximação foi sendo construída por geógrafos preocupados na compreensão da realidade de forma dialética com o paradigma da geografia que foi denominado de Geografia Crítica ou Radical.

Assim, pode-se falar de um Materialismo Histórico-Geográfico-Dialético, como é proposto largamente por Harvey (1984) para analisar, considerando tempo, espaço e ser social, a realidade objetiva em sua totalidade.

 

À guisa de conclusão

O tema central subjacente ao materialismo histórico é que os homens produzem a própria história, mas não o fazem de forma arbitrária. Lefebvre (1991, 2008) bem como Milton Santos (1982) concordam em considerar o espaço como uma produção social, através de trabalho. Dessa maneira existe uma expressão espacial, e não apenas histórica (temporal) da produção humana, de sua práxis social. Homem, sociedade e realidade se constituem, se criam, se produzem na práxis. E, a práxis, é feita no tempo e no espaço (LEFEBVRE, 1966).

Assim é construído o Materialismo Histórico-Geográfico. Com ele se assume “the integration of the production of space and spatial configurations as an active elemento within the core of marxian theorizing” (HARVEY, 2010, p.4). Nesse sentido, essa colocação, significa que espaço e tempo atuam, de forma determinante, na produção do ser social, que por sua vez, reage à esses elementos. É um processo dialético entre espaço, tempo e ser que constroem a realidade e, assim, através dessa análise, é possível a desvelar.

A tradição marxista representada pelo materialismo histórico-geográfico dialético é de grande importância para as ciências humanas fornecendo subsídio importante para o desvelamento da realidade. David Harvey (2010, p.3) diz ser “[...] the most powerful of all the explanatory schemas available”. Em especial a Geografia tardou em reconhecer o marxismo como importante contribuição para o seu desenvolvimento. A partir da análise dialética da realidade histórica e geográfica acredita-se ser um caminho importante para tentar alcançar, ao menos uma parcela, da realidade. Ainda Harvey (1984, p.4) destaca:

It had the potentiality – largely unrealized in actual work – to get at matters as diverse as built environment formation and archtectural design, street culture and micro-politics, urban economy and politics as well as the role of urbanization in the rich and complex historical geography of capitalism.

É esse referencial teórico-metodológico que vai permitir a construção de uma ciência da práxis social.

 

Referências

BUKHARIN, Nikolai. Historical Materialism. New York: Routledge Editors, 2012.   

CLAPP, Robin. An Introduction to Dialectical Materialism. In: CLAPP, Robin. A Different Outlook on Marxist Philosophy. London, 2009. Disponível em: www.marxism.org.uk

ENGELS, Friedrich. Cartas sobre a concepção materialista da história. Margem Esquerda – Ensaios Marxistas, v.20, 2013.

HARVEY, David. A Produção Capitalista do Espaço. São Paulo: Anna Blumme, 2006.

HARVEY, David. Justiça social e a cidade. São Paulo: Editora Hucitec, 1980.

HARVEY, David. O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011.

HARVEY, David. On the History and Present Condition of Geography: An Historical-Geographical Materialist Manifesto. The Professional Geographer, v.36, n.1, 1984.

HEGEL, Georg. A Fenomenologia do Espirito. São Paulo: Vozes, 2003

KONSTANTINOV, Fedor. Teoria Materialista da História. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1961.

LEFEBVRE, Henri. A Revolução Urbana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

LEFEBVRE, Henri. Le Matérialisme Dialectique. Paris: Presses Universitaires de France, 1949.

LEFEBVRE, Henri. The Production of Space. Oxford: Blackwell Publishing, 1991.

LUKACS, Gyorgy. Prolegômenos para uma Ontologia do Ser Social. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012.

MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007.

MARX, Karl. Grundrisse. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.

MARX, Karl. Manuscritos econômicos-filosóficos. São Paulo: Boitempo Editorial, 2010.

MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro 1, Vol.1. 13ª edição. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013.

MARX, Karl; ENGELS, Friederich. Manifesto do partido comunista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

MARX, Karl; ENGELS, Friederich. Textos. São Paulo: Alfa-Omega, 1977.

MORAES, Antônio Carlos Robert; COSTA, Wanderley Messias. A Valorização do Espaço – Geografia Crítica. São Paulo: Hucitec, 1993.

SODRE, Nelson. Fundamentos do Materialismo Dialético. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

ZIZEK, Slavoj. Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013.

 

Thiago Canettieri

Doutorando em Geografia pela UFMG

thiago.canettieri@gmail.com



[1] PLEKHANOV, Gueorgui. Essais sur l’Histoire du Matérialisme. Paris: D’Holbach-Helvétius-Marx, 1957.

[2] ENGELS, Friederich. Anti-Dühring. Vorwärts, 1878.

[3] ROSENTAL, Mark. STRAKS, G. Categories del Materialismo Dialéctico. Ciudad do México: Grijalbo, 1958.

 

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Ficha bibliográfica:

CANETTIERI, Thiago. Breves notas sobre o materialismo histórico-geográfico-dialético. In: Territorial - Caderno Eletrônico de Textos, Vol.5, n.7, 10 de setembro de 2015. [ISSN 22380-5525].