BRASÍLIA, CAPITAL DO IPÊ? – Isis Maria Cunha Lustosa

20/09/2015 12:00

Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho [...] Eu levo meus olhos a passear... Eles têm fome de ver. Encantam-se com tudo... Escrever é minha grande alegria!...Vejo e quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo... Minhas crônicas são fotografias... Cada texto é uma semente... Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês-amarelos...[i]

Rubem Alves

 

É aceitável uma única capital brasileira simbolizar o Ipê? Oficializar esta representação faz-se indispensável ou coerente? À frente retomo ambas as indagações, nada interessadas, assim como eu, em emudecer. Por enquanto, tinjo a nova grafia do meu ‘Mosaico Paudarquense’ (Figura 1). Desde a infância aprecio histórias de lugares. Algumas narrativas, que ouvi décadas atrás, mencionavam fatos inseridos em determinadas paisagens locais. A árvore Pau d’Arco particularizava certos números daqueles contos. Na dita fase criança, mesmo observadora, nunca sucedeu o prazer de avistar Ipê. A sua floração rosa, roxa, amarela, verde e branca acontecia apenas na minha fábula infantil.

O Ipê hibernado na memória afetiva (revelado naquelas histórias) ocorridas no Nordeste do Brasil despertou-se materializado na idade adulta, na minha mudança para a região  Centro-Oeste. Além de vê-lo, tocá-lo e palpar as suas flores coloridas, refrescava-me pelo intenso calor a sombra de Ipê durante o inverno seco na capital Goiânia em Goiás. Há cerca de doze anos residente no Brasil Central translumbro-me com a imensa diversidade da Flor do Ipé, desabrochada espontaneamente, aviva o desflorestado bioma Cerrado.

Nas idas a campo no município goiano, Pirenópolis, os muitos Ipês florescidos compuseram as pessoais películas cinematográficas a caminho do Morro dos Pireneus. O colorido contagiava o olhar da visitante. No caso, eu! Também nas poucas matas a margear a autoestrada entre as capitais (Goiânia e Brasília) as minhas viagens em diferentes meses permitiam formar o mencionado mosaico visual multicor de Ipê-Rosa, Ipê-Roxo, Ipê-Amarelo e Ipê-Branco. Por este último, o tenho em especial apreciação, brota a lembrança de coco na tapioca. Vê-lo florir proporciona saltitar para a meninice e recordar do alvo algodão doce e da pipoca. O contemplado cair das suas flores brancas semelha a neve derretida na dança do vento. A sua branquidão harmoniza a paisagem maculada e corrupta na capital nacional (Figura 2).

Ao longo dos anos como habitante Centro-Oestina e, transeunte em outras regiões do país e fora, os Ipês tornaram-se íntimos da minha visão, câmara e acervo fotográfico. O Ipê-Verde para mim ainda é um mistério (nunca o vislumbrei no tom tabaco) a olho nu. Embora me tenha autoapresentado para algumas destas árvores de flores (rosa, roxo, amarelo e branco), nunca serão comuns – Pés-de-Pau – por avistá-las todos os anos e as suas tantas metamorfoses. Os pés de Ipês conforme as distintas espécies possuem particularidades excepcionais. Em determinados períodos disfarçam-se cobertas de folhas no arvoredo. Às vezes aparentam mais despercebidas quando os troncos e os galhos tornam-se desnudos. As referidas etapas, pelo contrário, não são desprezíveis, nutrem as transformações necessárias. Embora reconheça que comumente os Ipês atraem os intensivos olhares no decorrer das suas floradas. O público admirador de diferente faixa etária é freado no seu transcurso, pois todos os anos às árvores Ipês (vestidas pelas flores brotadas) proporcionam esplêndidas aquarelas originais entre os meses junho e outubro no Centro-Oeste.

No espaço que coincide habitar Ipê o florir percorre os galhos da árvore. O colorir delineia o ambiente. O perfumar sutil caracteriza o lugar. Em alguns chavelhos das plantas as flores surgem juntas, frondosas com cachos similares aos cabelos dos sobrenaturais querubins (Figura 3). Impressiona mirá-las até mesmo aquelas flores nascidas em Ipê anualmente contemplado. As cíclicas germinações proporcionam condições surpreendentes. Jamais se veem constâncias numa nova temporada de Ipê floreado.  

No transcorrer da vida continuo a apreciar a admirável Pau d’Arco. Torno às cenas de situações diversas. Observei um amigo construir a sua morada Goiânia e, com semblante venturoso, fincava as mudas de Ipês na lateral da futura casa. Faz uns sete anos o feito. Pelo seu esmero imagino aqueles Ipês vingados com variadas tonalidades de flores entremeadas com as demais no personalizado jardim. Outra amiga cercou o condomínio residencial com trinta e cinco mudas de Ipezeiros na capital Palmas, no estado Bico-de-Tucano, Tocantins. As importâncias nos seus atos não correspondem às quantidades dos plantios. As ações em valorarem essas árvores Ipês cravadas nos solos (goiano e tocantinense) superam os quantitativos. Dois dos meus irmãos possuem Ipês-Brancos, cultivados por eles, em seus terrenos residenciais na Cidade Maravilhosa Rio de Janeiro e, na Cidade Jardim, a florida Goiânia. Ambos referem sobre os Ipês da alvura com ternura. Plantaram as suas árvores! Falando-se em plantar, o amor de Alves pelos Ipês, especialmente os amarelos, fez concretizado o seu desejo derradeiro. Li no texto de Paulo Silas “Filha de Rubem Alves relata que as cinzas do pai se fizeram seiva de um ipê amarelo.”[ii]

É fato, no Brasil, o Ipê crescer em muitos ambientes do país, incluso o amarelo especial adubado pelas cinzas do literata, portanto, mais lirismo virá nas futuras flores chamejantes. Justifica-se a Campanha Brasília CAPITAL do Ipê? Convém revelar trecho extraído da mídia local de Belo Horizonte que difunde “a capital mineira é a cidade que tem mais Ipês em todo o Brasil [...] 8.000 espécies da planta que estão em praças, parques e ruas de toda a cidade.”[iii] Além da capital nacional e da mineira BH, os Ipês, crescem em outras capitais e municípios brasileiros. Existem quatro municípios nominados Pau d’Arco nos estados (Piauí, Rio Grande do Sul, Pará e Tocantins). A alusão a citada árvore para nominar esses locais certamente não ocorreu à toa.

Há dois anos, recebi fotografia de Ipês-Amarelos reluzentes parceiros do sol flamejante da minha capital natalícia, Teresina a Cidade Verde, no Piauí. Na citada trajetória vivencial paudarquense, desde 2006, vislumbrava as floradas de três Ipês-Brancos vistos da varanda do apartamento. Doeu-me a queda da maior destas árvores após um temporal, em Brasília, no outubro de 2012. Cerca de 200 pés de árvores foram sacrificados na cidade devido à intensa chuva e ventos acelerados. Muitos vazios deixados eram canteiros de Ipês. Os dois brancos restantes perante a flora/fauna local responsabilizam-se pela ausência da árvore sacrificada. As provas vivas surgem a cada ano na paisagem. Evoluem densamente florados.

Na continuidade do apreço, em 2013, recebi outra imagem de Ipê-Amarelo. Era uma árvore ainda franzina e jovem. Impetuosa estava na urbanidade desmedida da capital Fortaleza. Plantada solitária persistia em viver no imprensado canteiro da agitada Avenida Senador Virgílio Távora. Ipezeiro de muita personalidade! Aquele amarelo Ipê proporcionou singularidade no quarteirão expondo as suas flores cor do sol na pulsada metrópole no Ceará ostentado ‘Terra da Luz’. O fotojornalista capturou a imagem pela varanda da morada. Enviou-me o registro virtual do seu vizinho Pau d’Arco, pois observa eu mencionar sobre os Ipês nas paisagens Cerradeiras.

Expandi o meu acervo de histórias dessa árvore. No mês de setembro de 2014 as vislumbrei, também na cor amarela (plantados encadeados) na saída do Aeroporto de Cumbica em Guarulhos - São Paulo. No percurso rodoviário até o município Caxambu em Minas Gerais, os Ipês, surgiam novamente. Às vezes partes das árvores encobertas, outros momentos expostas na mata. Em breve período fora do país, abril de 2015, para o meu contentamento durante estadia em Havana, na caminhada tranquila pela capital cubana, deparo-me surpreendentemente com o pé de Ipê-de-el-Salvador. A grandiosa e florida em tom rosáceo, embeleza no sol caribenho, a ampla “Ave 3A” no bairro Miramar (Figura 4). Em outro ponto da capital da ilha a paisagem local particular pactua a rosada florada da mesma espécie com os automóveis remotos (Figura 5). 

Brasília CAPITAL do Ipê? A propósito repito, Ipê, além de vingar no solo brasileiro como mencionado, encontra-se nos contextos paisagísticos internacionais de outros países da América Latina, América Central e Caribe. As sementes leves e voláteis das citadas diversas espécies (parecem ter atravessado os continentes) cravadas nas flechas de Pau d’Arco.

Poderia intercalar as narrativas anteriores com todos os demais relatos pessoais nos onze anos de morada na capital do Brasil atenta à trilha do Ipê. Disponho de inúmeras histórias. Impossível discorrê-las em detalhes. Correria o risco de tornar a escrita densa. Avalio mais significativo, ao invés de contar outras vivências, recordar as interrogações iniciais.

No arremate da crônica, embora observe atentamente a importância paisagística do Ipê em Brasília e, ainda, em Belo Horizonte capital concorrente no título do domínio estético da árvore conforme o ‘Programa BH mais verde’, reitero: Qual o sentido de criar “Capital do Ipê” no Brasil? O Ipê germina por todas as regiões do país. Por sinal, a Flor do Ipê-Amarelo, mediante a Lei 6.607/3/51978 está oficializada como a Flor Nacional. A legislação instituída em plena Ditadura Militar tem quase 40 anos. Ainda assim, suscito: a maioria da população brasileira desconhece a citada Lei. Menos ainda a representação patriota da delicada flor.

Perante a condição nacional da Flor do Ipê, como acolher a Campanha ‘Brasília CAPITAL do Ipê’[iv] apoiada pela TV Globo Brasília e o Jornal Correio Brasiliense? Segundo a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil - “Novacap, existem mais de 150 mil ipês nos canteiros entre os eixos rodoviários e nas superquadras do Plano Piloto [...] o GDF lançou um ‘programa de arborização’, com a meta de plantar 250 mil árvores de variadas espécies [...]”[v]

A árvore característica de um lugar não pode ter este mérito somente pelo aspecto quantitativo. Ou, meramente, estético. O Ipê além da condição paisagística fenomenal possui propriedades curativas e gastronômicas. Penso que estes aspectos estejam obscurecidos na empreitada – Campanha Brasília CAPITAL do Ipé. A iniciativa da Novacap de plantar mais e mais Ipês recai em decorar eixos, asas e tesourinhas do abalado solo da corrupção nacional.

O Ipê merece permanecer emancipado na paisagem sem título. A árvore em si é nacional e internacionalmente característica. O Pau d’Arco, madeira de lei, dispensa mais uma lei. Governos brasileiros, empresas privadas, mídias nacionais deixem a árvore Ipê ser o Ipezeiro. Esse nobre Pé-de-Pau deseja compor a plateia faunística para folhar... Despir-se das folhas sem acusações de desacato ao pudor... Florescer as suas cores, ano após ano, no mosaico natural sem almejar as premiações artificiosas decretadas por outros seres. Convém ajuizar a causa! Caberiam muito mais as campanhas para tornarem ‘BRASÍLIA CAPITAL NACIONAL DA ACESSIBILIDADE’. A condição constitucional para ir e vir, de maneira inclusiva respeitando-se as “capacidades diferentes”[vi], propiciaria ao morador / visitante a possibilidade ampla para (ver, tocar e aspirar) o aroma suave da Flor do Ipê. Floresce... chegou a Primavera!     

 

Isis Maria Cunha Lustosa

Doutora e Mestre em Geografia pela UFGs

Pesquisadora Externa no Laboter/IESA/UFG

isismclustosa@gmail.com



[i]Os Ipês-Amarelos: O que você ama, define quem você é. Disponível em: < http://casa.abril.com.br/materia/os-ipes-amarelos-o-que-voce-ama-define-quem-voce>. Acesso em: 1 set., 2015.

[iv] Campanha Brasília Capital do Ipê, parceria entre o jornal Correio Braziliense e a TV Globo Brasília. Basta o leitor ou telespectador postar uma bela foto da árvore nas redes sociais com a hashtag #BrasiliaCapitaldoIpe ou enviar a imagem para o Whatsapp do jornal ou da emissora [...]. Os melhores registros serão apresentados em um caderno especial e em um vídeo na televisão. Quem quiser acompanhar as reportagens da série também pode acessar o site www.correiobraziliense.com.br/BrasiliaCapitaldoIpe.

[v] Ipês são tema de ação da TV Globo em parceria com 'Correio Braziliense'. Disponível em: <http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2015/07/ipes-sao-tema-de-acao-da-tv-globo-em-parceria-com-correio-braziliense.html>. Acesso em: 1 set., 2015.

[vi] Termo utilizado nas placas nos espaços reservados nos estacionamentos da Universidad Autónoma del Estado de México em Toluca para o público “portador de necessidades especiais” como se diz no Brasil.  

 

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Ficha bibliográfica:

LUSTOSA, Isis Maria Cunha. Brasília, capital do Ipê? In: Territorial - Caderno Eletrônico de Textos, Vol.5, n.7, 20 de setembro de 2015. [ISSN 22380-5525].