BARRAGEM DO FUNDÃO: “VALE” DE LÁGRIMAS EM MARIANA – Isis Maria Cunha Lustosa

09/11/2015 12:00

 

A semana passada no Brasil iniciada com o feriado nacional dedicado aos mortos “Dia de Finados– concluiu-se com a sensação de perdurar a data pela lembrança dos que faleceram em decorrência da recente tragédia no estado de Minas Gerais (MG). Em meados da tarde do dia (5.11.2015) as empresas – a anglo-australiana BHP Billiton e a brasileira “Vale S.A.” antiga “Companhia do Vale do Rio Doce” – por meio de duas das suas tantas represas de resíduos amargos promoveu o “Vale de Lágrimas” em um amplo raio no distrito Bento Rodrigues pertencente à histórica cidade Mariana-MG.

Na recente tarde fatídica a “Barragem do Fundão” de rejeitos minerais rompeu-se subitamente. Também, a Barragem Santarém. Ironia do destino a Fundão pela força dos seus resíduos arrastou desmedidamente as pessoas, as casas, os animais, os carros e tudo mais encontrado pela frente, soterrando-os no extenso fundão no “Vale de Lama”. Segundo veiculado ultrapassa “100 km”[i] de extensão rumo ao estado do Espírito Santo (ES). Naquele lugar onde os licenciamentos inaceitáveis foram concedidos à Samarco Mineradora, o legado para a população  é um “Vale de Desesperos” cercado pelas perdas e descasos consentidos legalmente pela União.

Sem “dó e piedade” os marianenses junto aos que escolheram Bento Rodrigues para residir foram abruptamente atingidos pela enxurrada (des)GOVERNADA dos rejeitos  represados pela Samarco Mineração. Vale referir a face docemente lavada do representante da Samarco durante pronunciamento à população atingida (sobrevivente) e diz: "Lamentamos profundamente e estamos muito consternados com o acontecido, mas estamos absolutamente mobilizados para conter os danos causados por esse acidente."[ii] Lamentar-se não devolve as vidas interrompidas, nem reestrutura o ambiente com os impactos socioambientais provocados. A nota da Samarco complementa o despautério: “... A organização está mobilizando todos os esforços para priorizar o atendimento às pessoas e a mitigação de danos ao meio ambiente ...”[iii] Embora os danos ambientais ressaltados por cima na citada nota, estes não podem vingar como recentes. Independente da tragédia em terra mineira alastrada para destinos do estado do ES os impactos causados pelas mineradoras são fatos concretos em todo o país.  

Os direitos dos habitantes são “barrados” por “barragens” para favorecer as concessões de licenciamentos absurdas e irresponsáveis. Esta realidade que acomete Mariana, não é fato isolado no Brasil, apenas mais um dentre tantos outros gravíssimos. Avistadas as imagens televisionadas (Figura 1) das destruições em Mariana, recordei-me das minhas experiências entre 2006 e 2009 junto ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no estado do Tocantins, exatamente no Assentamento Mariana[iv] no bairro Taquaralto na capital Palmas-TO, para onde a Empresa Investco alojou algumas famílias cujas terras haviam sido expropriadas pela força do capital da Usina Hidrelétrica Luis Eduardo Magalhães (vulgo UHE Lajeado). Naquele local as famílias relocadas foram largadas deixando para trás as suas histórias de vidas e as propriedades, propositadamente, inundadas pela Lajeado. Selados pela categoria (re)assentados tentavam (re)fazer as suas vidas totalmente transtornadas e, também, conceber naquele mínimo pedaço de terra um novo lugar, embora não pudessem resgatar os laços familiares e comunitários das vivências imersas pelas “lajes” da Lajeado que abrangeu áreas de Lajeado, Porto Nacional, Miracema do Tocantins, Brejinho de Nazaré e Palmas.

Torno à situação de Mariana. O município histórico (primeira capital) do estado de Minas Gerais com belo contexto arquitetônico, hoje, agrega a macula (Figura 1) provocada pelos (re)jeitos da mineração, pois geograficamente encontra-se no Quadrilátero Ferrífero. Os pronunciamentos de representantes da Samarco e dos governantes coniventes com os licenciamentos chancelados não darão nenhum jeito no mar de rejeitos derramado em Mariana.

M ariana da Padroeira Nossa Senhora do Carmo tornou-se fúnebre

A inda nem sabemos as dimensões futuras do desastre socioambiental. Que Carma!

R ejeitos dos lucros nacionais e internacionais das empresas

I nvadiram por licenças o distrito mineiro

A bela Mariana...dorme horrível e triste no novembro de 2015...e em diante  

N ada dará jeito agora, pois os licenciamentos deveriam ter sido rejeitados 

A qui registro a minha indignação relativa à situação em Mariana e outras, pois...

Pesquiso os impactos de grandes projetos em Terras Indígenas do Nordeste do Brasil. Nos casos que acometem os povos indígenas do estado do Ceará acompanho as lutas de alguns desses povos diante a força do capital provocada pelas empresas do agronegócio do camarão em cativeiro com as suas fazendas de carcinicultura licenciadas em áreas da zona costeira do estado. Também as monoculturas de cana-de-açúcar que invadem territórios tradicionais para garantirem as produções das cachaças para encherem as garrafas do tipo exportação das agroindústrias locais. Nas regiões serranas do estado as monoculturas de rosas pulverizadas com agrotóxicos ocupam os aviões rumo à Holanda. Ainda no litoral leste e oeste cearense os projetos turísticos de empreendedores internacionais são impostos aos indígenas na tentativa de cooptá-los para serem erguidos em suas terras tradicionais. Nas mesmas costas oceânicas as usinas eólicas fincam aerogeradores nas dunas (terraplenadas) para acomodarem os coqueiros de hélices geradores de energias na paisagem decomposta. Todos os impactos socioambientais e culturais no contexto da “cearensidade”[v] empresarial são somados aos demais projetos, como: complexo portuário, rodovia, mineradora, siderúrgica que chegam aos territórios do povos indígenas do Ceará. Deste modo, as terras indígenas não são homologadas. É o Brasil das bancadas...!!!             

Profa. Dra. Isis Maria Cunha Lustosa 

Pesquisadora Colaboradora no Laboter/IESA/UFG.

isismclustosa@gmail.com



[i] Lama de barragens atinge áreas a até 100 km de distância em MG. Disponível em:< http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2015/11/hidreletrica-100-km-e-afetada-por-lama-do-rompimento-de-barragens.html>. Acesso em: 6 nov., 2015.

[ii] Barragens se rompem e enxurrada de lama destrói distrito de Mariana. Disponível em: <http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2015/11/barragem-de-rejeitos-se-rompe-em-distrito-de-mariana.html>. Acesso em: 6 nov. 2015.

[iii] Idem.

[iv] Ministério do Meio Ambiente (MMA). Subprograma Projetos Demonstrativos PDA - Projeto BRA/03/009: relatório anual de progresso janeiro a dezembro de 2008. Brasília: MMA. 80p.

[v] CORIOLANO, Luzia Neide M. T. O turismo na construção das identidades contemporâneas: cearensidade. In SILVA, José Borzacchiello da; LIMA, Luiz Cruz; ELIAS, Denise. (Orgs). O Panorama da geografia brasileira 1. São Paulo: Annablume, 2006, p. 137-150.

 

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Ficha bibliográfica:

LUSTOSA, Isis Maria Cunha. Barragem do Fundão: "Vale" de lágrimas em Mariana. In: Territorial - Caderno Eletrônico de Textos, Vol.5, n.7, 09 de novembro de 2015. [ISSN 22380-5525].