AS PRÁTICAS MÉDICAS NO IMPÉRIO MARÍTIMO PORTUGUÊS NO SÉCULO XIX - Fernanda Soares Rezende & Henrique Martins da Silva

08/04/2016 12:49

“Já alguém disse, com grande sagacidade, que não há doenças, mas doentes[1]

 

A história das práticas médicas está distante de ser uma narrativa simplória de um progresso permeado de vitórias. Visto que, as epidemias nasceram com a sociedade, e a doença foi e continuará a ser um produto social, tanto quanto a medicina que luta contra ela. Desde modo, pode-se inferir que a “civilização” não traz apenas mal-estar, mas também doenças. “A doença pertence à história, em primeiro lugar, porque não é mais do que uma ideia, um certo abstracto numa complexa realidade empírica, e por que as doenças são mortais[2]”.

Na proporção que os seres humanos se alastraram pelo mundo, eles próprios foram colonizados por agentes patogênicos. Visto que, as sociedades desenvolveram inúmeras formas de lutar com suas moléstias e com seus doentes. Dessa forma, ficar doente também é uma experiência social, uma vez que, o ambiente social exerce uma influência fundamental e estabelece mudanças nas mais diversas formas de compreender as doenças e também nas práticas de cura das mesmas. Assim, pode-se afirmar que o tratamento das doenças sempre foi vislumbrado como uma necessidade, e mesmo em tempos remotos, nos quais as grandes epidemias afligiam grande parte da população, essa batalha de contenção contra as doenças nunca foi considerada perdida.

Para Roy Porter[3], “o comércio, a guerra e a conquista sempre exportaram doenças”. Nesse contexto, se insere a expansão marítima europeia, ocorrida entre os séculos XV e XVII que favoreceu tanto o contato comercial entre todas as partes do mundo, como se tornou possível uma história em escala mundial, favorecendo uma ampliação dos conhecimentos geográficos e o contato entre as mais variadas culturas.

Por meio dos descobrimentos marítimos, os europeus foram revelados a um novo mundo, desconhecido em inúmeros aspectos e que esclareceram incontáveis mitos e lendas que se situavam para o além-mar. Não resta dúvida de que o contato do europeu com as novas terras descobertas e seus habitantes sofreu a mediação das representações contidas nesta tradição, derivando descrições e interpretações da realidade marcadas por elementos fantásticos e irreais. A sabedoria angariada no além-mar revolucionou em especial a Medicina[4] e a História Natural[5]. Visto que estas são duas áreas do saber que se compõem de forma interligada.

Todavia, pode-se constatar que há uma carência de profissionais licenciados que exerciam o oficio médico, nos primeiros anos de permanência dos conquistadores na América Portuguesa. Destarte, entre os diversos personagens que se movimentaram pelo mundo atlântico e nas sociedades escravistas do Novo Mundo, ao longo dos séculos XVII e XIX, destaca-se a figura de alguns poucos cirurgiões, barbeiros, boticários, e práticos da medicina.

No que tange o papel de cada um desses profissionais, vale ressaltar que, os cirurgiões, eram práticos que exerciam a função de médicos devido à ausência de profissionais formados. Assim, deveriam ter conhecimento sobre as doenças, anatomia e cirurgia de determinadas partes do corpo, cuja maioria das vezes buscavam demonstrar erudição no trato das moléstias internas, discutiam teorias e escreviam manuais práticos de medicina. Os barbeiros ou sangradores compreendiam os práticos que ofereciam o serviço de barba e corte de cabelo e também a aplicação de ventosas e sanguessugas no corpo do individuo doente. Com relação aos boticários, estes geralmente eram donos de boticas, cuja função estava restrita ao preparo e manipulação de substancias e suas propriedades. Já os demais indivíduos que se aventuravam a exercer o ofício médico sem possuir formação acadêmica, a exemplo das parteiras, eram denominados de “práticos da medicina”.

Com efeito, a observação e o trato de moléstias até então desconhecidas, o uso de produtos da farmacopeia indígena, o recurso a procedimentos terapêuticos ensinados pelos moradores da terra ou por antigos colonos, constituem temáticas presentes nas narrativas feitas a partir de suas vivências. Sérgio Buarque de Holanda (1995) demonstra como os usos da fauna e da flora local foram de extrema importância entre os colonizadores no que tange o preparo de seus medicamentos.

Na medicina popular e de emergência, os produtos tirados do reino animal são, talvez, apenas superados pelos de procedência vegetal. E foi certamente no contato assíduo do sertão com seus habitantes que o paulista terá apurado as primeiras vagas noções de uma arte de cura mais em consonância com nosso ambiente e nossa natureza. (HOLANDA, 1995.p.76.)

Por meio das descrições presentes nos tratados médicos à etiologia e a natureza das doenças, os autores coloniais se mostram profundamente apegados à fisionomia étnica da população. Encontram-se explicitadas as moléstias próprias aos brancos, dos grupos indígenas e as que atacavam com maior incidência os africanos. Apreendem-se também suas imunidades, das quais a mais significativa em tempos de epidemia, é aquela relativa à febre amarela, ou à bicha, da qual se livravam os negros.

O saber oriundo do reino português atrelou-se à cultura indígena e africana ao sabor das circunstâncias oferecidas pela terra conquistada, originando um complexo tipicamente colonial. Ao se considerar a medicina enquanto amálgama cultural, nada mais revelador que analisa-la no século XVIII, pois duzentos anos de convivência entre brancos, negros e índios foram certamente suficientes para que suas culturas se entrecruzassem e originassem uma formação social fortemente marcada pela especificidade. (RIBEIRO, 1971. p. 24)

Todavia, com relação aos escravos, os cirurgiões relatam as péssimas condições físicas e alimentares, enormes contingentes em espaços mínimos, cujas viagens costumavam durar mais que um mês, transformavam os navios negreiros em verdadeiros criatórios de moléstias. Além das frequentes epidemias de varíola e de bexiga que acometiam a tripulação dos navios, outras doenças poderiam ser observadas nos depósitos dos africanos recém-chegados aos portos. De acordo com João Cardoso de Miranda (1741), o escorbuto, cuja causa se desconhecia era responsável por perdas significativas nos desembarques nos portos brasileiros.

Sob a perspectiva de Junia Ferreira Furtado (2011), ao medico cabia a função de medicar e a natureza se apresentava como um laboratório natural de fármacos. De modo que, através da pratica da observação direta, possibilitou a inclusão de novos medicamentos aos tratamentos. Assim, pode-se perceber que os livros escritos pelos cirurgiões foram destinados, sobretudo para os habitantes da região, uma vez que a presença de médicos era quase inexistente na colônia.

Com relação às principais mazelas que acometiam os escravos, os cirurgiões descreveram que grande parte das doenças que os afligiam estavam ligadas a atividade mineradora, que os obrigavam a permanecer longas horas na agua, sem mencionar os acidentes que ocorriam durante o trabalho. Para Miranda, o fator que proporcionava inúmeras mortes e inutilizava grande parte dos escravos era o escorbuto, sendo que o referido cirurgião foi o pioneiro ao produzir um medicamento para o tratamento da respectiva doença.

(...) a causa do escorbuto estava relacionada ao estado de animo dos escravos na travessia marítima, atribuindo-a á desordem dos humores. Para Luís Gomes Ferreira, a doença provinha da África, e culpou os escravos pela sua transmissão, por isso ela seria conhecida também como mal de Luanda. (FURTADO. 2011. p. 104-105)

Para além do escorbuto, os cirurgiões também abordam o bócio, sendo este uma moléstia que acometia as populações que estavam há algum tempo distante do litoral. Acreditava-se que o bócio era uma doença causada pela insalubridade das aguas, percebendo que a doença afligia a todos que permaneciam durante um longo tempo na região.

A partir da capacidade do ambiente transmitir suas qualidades e reequilibrar os humores do corpo doente. Luís Gomes Ferreira, afirma que sua experiência prática permitiu que ele percebesse que “alguns tem sarado tomando as ondas do mar (...), ou morando perto do mar. (FURTADO. 2011. p. 106)

Desde modo, os cirurgiões a partir das suas respectivas praticas médicas, compreenderam que as doenças que grassavam na América Portuguesa, exigiam tratamento para além do que conheciam, assim introduziram na farmacopeia vigente, ervas e produtos regionais cujo uso era recorrente entre os moradores da região. Assim, pode-se vislumbrar que o conhecimento médico foi sendo constituído a partir das experiências cotidianas dos cirurgiões, práticos e curandeiros que percorriam a região exercendo as práticas curativas.

Inúmeros cirurgiões e práticos na América Portuguesa conseguiram vislumbrar que muitos medicamentos utilizados não poderiam ser explicados a luz da razão, mas sim através da fé, uma vez que se caracterizava como oculto ao entendimento humano. Assim recomendava-se que os remédios deveriam ser aplicados com fé, pois muitas doenças dependiam da boa vontade de Deus.

A arte da Medicina na colônia também requeria um profundo conhecimento do quotidiano dos moradores locais, pois os laços comunitários característicos de seu modo de viver refletiam claramente na profilaxia das doenças. O corpo doente forjava laços de sociabilidade, causados não apenas por compaixão ou parentesco, mas porque compor os ingredientes constantes nas formulas dos remédios exigia do médico um profundo conhecimento do interior das casas e da vida alheia. (FURTADO. 2011. p.112).

Destarte, por meio da analise das praticas médicas vigentes no império marítimo português, podemos compreender que a arte de lidar com a saúde e a doença talvez seja tão antiga quanto à própria humanidade. Em um período recheado de crenças na forma de vislumbrar e pensar o corpo e o desenvolvimento das doenças. Corpo este, que não age de forma imprevista, mas em meio a um contexto social e temporal que lhe estabelece limitações, tensões e contradições. Cabendo aos que se aventuram a exercer o oficio médico estabelecer meios e mecanismos sobre os quais pudessem reestabelecer a saúde dos corpos desprovidos de saúde.

 

Referências bibliográficas:

ABREU, Jean Luiz Neves. Higiene e conservação da saúde no pensamento médico luso-brasileiro do século XVIII. Asclepio. Revista de Historia de la Medicina y de la Ciencia, 2010,vol. LXII, nº 1, págs. 225-250.

CABRAL, Oswaldo. Medicina, Médicos e charlatões do passado. Florianópolis: Imprensa Oficial, 1942.

FURTADO, J. F. A medicina no império marítimo português. In: STARLING, Heloisa Maria; GERMANO, Ligia Beatriz de Paula; MARQUES, Rita de Cássia. (Org.). Medicina: História em exame. 1ed.Belo Horizonte: EDUFMG, 2011, v. 1, p. 83-119.

LE GOFF, Jacques (org.). As Doenças têm história. Lisboa: Terramar, 1985.

MIRANDA, João Cardoso de. Relação cirúrgica, e médica, na qual se trata, e declara especialmente hum novo methodo para curara infecção escorbutica. Lisboa, 1741.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

PORTER, Roy. Das tripas coração. Uma breve história da medicina. Rio de Janeiro: Record, 2004.

RIBEIRO, Lourival. Medicina no Brasil colonial, Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana, 1971.

SANTOS FILHO, Lycurgo. História geral da medicina brasileira. São Paulo, Hucitec/Edusp, vol. 2, 1991.

VIOTTI, Ana Carolina de Carvalho. As práticas e os saberes médicos no Brasil Colonial (1677 – 1808). 2012. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Franca-SP.


Fernanda Soares Rezende

E-mail: fernanda.soares.ufg@gmail.com

 

Henrique Martins da Silva

Email: henriquemartins.silva@yahoo.com.br

Mestrandos em História pela Universidade Federal de Goiás

 

 



[1] ASSIS, Machado de. 19 de novembro de 1893. In: A Semana. Rio de Janeiro: H. Garnier, s.d.

[2] (LE GOFF, 1985, p.7)

[3] (PORTER, Roy, 2004, p. 27).

[4] A medicina é caracterizada como a arte de curar doenças e restabelecer a saúde, tendo o médico sempre como agente do processo de cura.

[5] A História Natural, por sua vez, compreende o estudo dos corpos (vivos e inorgânicos) que entram na constituição do globo terrestre ou estão na superfície.

 

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Ficha bibliográfica:

REZENDE, Fernanda Soares; SILVA, Henrique Martins da. As práticas médicas no Império Marítimo Português no século XX. In: Territorial - Caderno Eletrônico de Textos, Vol.6, n.8, 08 de abril de 2016. [ISSN 22380-5525].