A MULHER GOIANA NAS OBRAS DE BARIANI ORTÊNCIO E SAINT HILARE - Caio Sena

25/04/2014 12:00

 

Ao cursar a disciplina Geografia de Goiás na Universidade Federal de Goiás, alguns textos foram sugeridos para que pudessemos pensar de forma ampla o território goiano. Os textos iniciais foram bastante diferentes, porém cada um posicionou de alguma maneira a historiografia de Goiás em diferentes períodos. Foi sugerido pensarmos na forma que guarda o território, nas questões geomorfológicas, na produção do espaço, nos sujeitos ou subjetividades que podem estar presentes no chão goiano.

Nas primeiras aulas, aconteceram debates a respeito de uma possível “goianidade geográfica”, ou “modo goiano de se produzir geografia”. O debate acabou tangenciando para o humor, quando o professor disse acreditar em um modo goiano de produção quando o pesquisador escreve comendo pamonha e tomando suco de mangaba – elementos gastronômicos que provavelmente foram apreciados por Bariani e Horieste, mas que não atraiu Saint-Hilaire, pois além de não se simpatizar com nosso modo goiano, o francês tampouco gostou de nossas moças.  

E foi justamente as “moças de Goiás” que selecionei e vi um bom ponto de encontro entre as narrativas que serão relacionadas e sublinhadas a seguir. A imagem da mulher em Saint-Hilaire e Bariani Ortêncio é de gritante diferença. Já o texto “A formação territorial” de Horiente Gomes e Teixeira Neto não chega a abordar especificamente a imagem da mulher em si, mas demonstra um elemento territorial importante para a urbanização, por isso ficará por último e será usado para fechar esta breve análise.

Para não me colocar em uma posição do nativo bairrista e defensor, ao invés de tecer críticas anacrônicas a narrativa de território goiano e mulher goiana de Saint-Hilaire - um botânico, naturalista e francês que viveu de 1779 à 1853 – ponderei ser mais viável ler o texto de forma despretensiosa e, assim, quase consegui ver humor em alguns trechos mais caricatos para os tempos atuais.

Em “Vila Boa ou a Cidade de Goiás”, existe um trecho em que o naturalista europeu Saint-Hilaire descreve a mulher goiana assim: “seus traços não tem nenhuma delicadeza, seus gestos são desgraciosos e sua voz não tem doçura. Como não recebem educação, sua conversa é inteiramente desprovida de encanto. São inibidas e estúpidas, e se acham reduzidas praticamente ao papel de fêmeas para os homens”, (1975, p.54). Esses e outros adjetivos são utilizados pelo autor para contar do seu choque com nossa cultura e organização social a partir da mulher.

Já Bariani Ortêncio, que também retrata uma mulher do campo, apresenta para seus leitores uma figura bastante diferente. Em “A mulher do Elpídio”, Tianinha não poderia ser encarada, em hipótese alguma, como um ser estúpido. Isso porque a mulher é personagem principal da trama e seu papel é justamente o de utilizar sua inteligência para despistar um velho assanhado e, de quebra, vender uma égua da família que “valia lá seus trinta e cinco réis”, por nada mais nada menos que duzentos mil réis. Tudo isso de maneira bem estratégica. No início do conto de Bariani, a mulher foi descrita e vista da seguinte forma: “... o jeito de dançar, no requebro, aquele sorriso sempre fácil com aquelas covinhas no rosto moreno, aquele processo de olhar fundo dentro do olho da gente, é que punham os homens doidos. Agora, honestidade, respeito, chegou ali e parou. Ninguém nunca viu a Tianinha com fuleragem com seu ninguém algum”.

Esses dois grifos evidenciam as diferença da mulher na narrativa dos dois autores. Porém, é prudente considerar que são autores de tempos diferentes e que escreveram motivados por diferentes razões. Mas, para sublinhar alguma semelhança, em algum momento de suas narrativas, os dois autores descrevem uma goiana parideira. E aqui “no Goiás” realmente não se perde tempo não: segundo dados do IBGE (1940, 2000 e 2010) – apenas para ilustrar, quase sempre o Centro-Oeste esteve acima da média nacional na taxa de fecundidade.

Na divergência da representação da mulher, fica claro que a subjetividade e a esperteza do povo brasileiro e, especificamente aqui a destreza da mulher goiana, não pôde ser vista pelo estrangeiro francês em sua passagem por nosso território. Um trabalho de campo está sujeito a não conseguir destacar elementos centrais de determinada realidade, principalmente quando este elemento é parte da cultura do povo.

No caso aqui destacado, a partir do contexto de onde Saint-Hilaire vinha, bem como seus objetivos, talvez não fosse possível que ele observasse a família brasileira com este tipo lente. Porém, é válido lembrar que o comportamento observado por um estrangeiro a respeito da mulher goiana, não pode ser entendido como certo ou errado, mas sim uma face de uma observação.

Teixeita Neto e Horieste Gomes retratam em “A formação territorial” a importância de algumas redes, como a de transporte, na mudança “inclusive no comportamento social das pessoas” (2004, p. 76). À medida que um território deixa de estar “ilhado por muito tempo no coração do Brasil, principalmente pelas grandes distâncias que o separavam do resto do Brasil” (id. 2004, p.76), alguns valores e concepções sociais vão sendo alteradas. Isso porque a integração territorial por meio dos transportes é o primeiro passo para que outras estruturas (escolas, hospitais, shoppings, cinema, feiras, boates entre outros) cheguem ao território e auxiliem na transformação social de uma cidade ou cultura de um povo.

A concepção social da mulher certamente era diferente na França e no Brasil na época em que Saint-Hilaire viveu. Não somente a imagem da mulher, mas também as cidades e os elementos que influenciavam a vida das pessoas sejam essas brasileiras ou francesas, e em cada parte das cidades, dependendo do tamanho de cada cidade, encontramos especificidades. Isso além de contribuir com o choque cultural do viajante francês, também influenciou seus relatos. Não parece um equívoco dizer que até hoje a mulher européia se diferencia da mulher brasileira, mas por conta de outros fatores e elementos histórico – culturais. 

 

Referências

ORTÊNCIO, Bariani. Sertão sem fim. 3º Edição, Editora UFG, 2011.
SAINT-HILAIRE, Auguste de, Viagem à província de Goiás. Belo Horizonte, Itatiaia, 1975.
TEIXEIRA NETO, Antônio & GOMES, Horieste. Geografia – Goiás-Tocantins. 2ª Edição, Editora da UFG, 2004.

 

Caio Sena

Graduando em Geografia pela Universidade Federal de Goiás

Integrante do grupo "Espaço, sujeito e existência".

caiosenageo@gmail.com

 

 

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Ficha bibliográfica:
 
SENA, Caio. A mulher goiana nas obras de Bariani Ortêncio e Saint Hilare. In: Territorial - Caderno Eletrônico de Textos, Vol.4, n.6, 25 de abril de 2014. [ISSN 22380-5525].