A LUTA PELA MOBILIDADE E A DISSOLUÇÃO DAS IDENTIDADES: O QUE ESPERAR DE UM MOVIMENTO QUE NÃO ACEITA AS CONTRADIÇÕES - Tadeu Alencar Arrais

23/06/2013 12:00

 

A minha alma tá armada e apontada
Para cara do sossego!
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
Medo! Medo! Medo! Medo!

O Rappa

 

Não é novidade que o gerenciamento da mobilidade, em diferentes cidades do planeta, tornou-se um desafio. Em países como o Brasil, com intenso processo de metropolização, os desafios em torno da mobilidade são reconhecidos pelos gestores governamentais pelo menos desde a década de 1960. A mobilidade tornou-se fundamental, primeiramente, por ser condição sine qua nom para reprodução da força de trabalho.  A rigor, a demanda por mobilidade acompanhou a expansão horizontal das cidades e a oferta de moradia para parte da população mais pobre. A mobilidade, portanto, tem na questão fundiária, traduzida na morada, sua raiz.

Mas a mobilidade, logo, também tornou-se um grande negócio. Um negócio lucrativo, motivo pelo qual assistimos, aos longo das décadas, a disputa pelo monopólio da mobilidade urbana nas grandes cidades. A discussão sobre a mobilidade ilustra, ao mesmo tempo, duas características do atual momento. A primeira, apoiada na experiência da violência cotidiana a que são submetidos milhões de trabalhadores diariamente, reivindicou dos governos a diminuição e/ou manutenção das tarifas do transporte coletivo. A segunda, professada com cinismo pelos governos de diferentes temperos, atendeu as reivindicações dos primeiros, mas sem deixar de alertar que essa saída implicará em diminuição de investimentos em saúde, educação e infraestrutura urbana. Como no poema de Cecília Meireles, Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva! Nessa equação, os usuários do transporte coletivo, como sempre, perderão.

Seja em São Paulo, no Rio de Janeiro ou mesmo em Goiânia, prefeitos e governadores sequer cogitaram a possibilidade de reduzir as taxas de lucro das empresas de transporte coletivo. Ao contrário, as empresas foram protegidas, blindadas - afinal, é larga a possibilidade de encontrarmos algumas dessas empresas na lista de doadores de campanhas políticas em diversas cidades brasileiras. A ideia de que o transporte coletivo é público, dado o sistema de concessões, desvia o foco da crítica das empresas para os governos municipais e estaduais. É incrível que pouco se tenha falado nas concessionárias, nas empresas que estão na ponta dessa lucrativa cadeia produtiva. As cinco concessionárias que atuam na Região Metropolitana de Goiânia, por exemplo, são responsáveis por quase 400 mil viagens mensais no espaço intrametropolitano. Lucro certo e líquido, pois a mobilidade é insumo indispensável para reprodução da vida diária (e do capital). Pouco se fala, por exemplo, das cláusulas contratuais que exigem pontualidade, regularidade e grau de conforto por parte das empresas. A ideia de que o transporte é público (quando de fato não é), retira do foco das reivindicações o processo de acumulação e monopolização da mobilidade por parte das empresas. A ideia de que o transporte é público (quando de fato não é) tornou-se um álibi para as empresas, já que os governos ficam com a imagem de ineficientes, ao mesmo tempo em que as empresas recebem mais subsídios e incentivos fiscais. Não é preciso lembrar que qualquer tentativa de romper esse monopólio, a exemplo dos perueiros (termo pejorativo utilizado com frequência pela imprensa), é reprimida com força policial, bastando para isso lembrar a truculência com que policiais trataram trabalhadores do transporte alternativo, no Campus da Universidade Federal de Goiás, no ano de 1999.  

Nesse momento entra em questão as discussões sobre a violência, que entraram na agenda da imprensa e de parte dos intelectuais que frequentem os estúdios de TV. Somos contra a violênciacondenamos a violênciaum pequeno grupo de vândalosa geração Z esta nas ruas, repetem em coro, seguindo um protocolo metonimicamente preparado e distribuídos para as sucursais em todo o país.  No primeiro momento, o discurso da violência foi utilizado genericamente para desqualificar os movimentos que, de forma contraditória, também não reconheceram a violência nem mesmo como um sintoma residual das manifestações - afinal todos condenam a violência. É incrível como a situação a que são submetidos, diariamente, milhões de pessoas que dependem do transporte coletivo nunca tenha sido reconhecida como um ato cotidiano e institucional de violência. É incrível como a depredação de um ônibus, para a grande mídia, caracteriza mais um ato de vandalismo do que a situação que milhares de mulheres e idosos enfrentam diariamente no transporte coletivo.  Os “protagonistas” de agora, cuja invisibilidade é atestada como uma das características dessa nova era da informação e da dissolução das identidades, passam, de um momento para o outro, a ocupar o lugar daqueles que perdem horas sagradas do seu dia a dia em um transporte coletivo caro e de péssima qualidade. Aos novos olhos da mídia, que receberam memorandos sincronizados para evitar dessabores com o público manifestante, as manifestações passaram a ser polarizadas entre um pequeno grupo de vândalos e uma grande maioria de pessoas de bem, a cantarolar o hino nacional, distribuir flores para uma polícia repressiva e sentar-se de cócoras no asfalto, a esperar parir, dessa posição, uma nova sociedade. Um dos manifestantes, disso me lembro bem, advertia um companheiro que deveriam agir como Gandhi, pois a não agressão promoveria a paz. A intenção de paz, na opinião de muitos, foi o que garantiu a visibilidade do movimento.  Ingenuidade. A visibilidade desse movimento não foi construída por aqueles que pregavam paz, mas pelas respostas às atitudes repressoras aos que ousaram dar um passa a frente. Não podemos esquecer que, em Goiânia, a Praça Cívica foi fechada pela polícia para evitar “atos de vandalismo”, enquanto alguns puritanos, de posse de microfones, tentavam conduzir e distanciar, sorrateiramente, parte dos manifestantes do centro do poder. Não é por acaso que a alusão ao filme V de Vingança tenha sido a mais frequente dentre os manifestantes em várias partes do país. Não nos esqueçamos que o espetáculo da violência gera lucros e dividendos, sendo funcional tanto para grandes grupos de mídia, quanto para as empresas que garantirão, mais uma vez, taxas de lucro financiadas pelo poder público – afinal, ninguém desejará que tais episódios se repitam! Não nos enganemos. A parcela da população pobre continuará refém das empresas de transporte coletivo e, portanto, continuarão submetidos a violência cotidiana. A própria presidenta, em seu discurso apressado, anunciou um Plano Nacional de Mobilidade Urbana – uma pena que ninguém tenha soprado no ouvido da presidenta que já dispomos, na esfera nacional, de uma Política Nacional de Mobilidade Urbana Sustentável.

Mas ainda existe outra questão que tangencia essa discussão. Se trata de coro sincronizado que procurou excluir, por meio de intimidações, diferentes agremiações partidárias, sindicatos e movimentos sociais das manifestações. Uma parte significativa dos manifestantes ajoelharam-se diante da Polícia Militar, mas não se intimidaram em expulsar das ruas qualquer um que se atrevesse a manifestar suas preferências partidárias ou sindicais. Agenda única. Pensamento único. Mas quem define o que é único, especialmente em uma sociedade plural?  Que horizonte de construção de espaço público é esse que é incapaz de reconhecer as contradições que são inerentes ao próprio movimento?  Quem vive nos centros das cidades é acostumado a conviver com heroicas manifestações de sindicatos de professores, funcionários públicos, agremiações partidárias minoritárias, aos gritos, tentando chamar atenção dos passantes. Essas mobilizações, dificilmente, ocupam qualquer espaço na mídia. São invisíveis. O movimento dessa semana, portanto, não inventou a manifestação de rua. A manifestação de rua não tem patente, independente se marcadas por meio do facebook ou por telefonemas.  

Naquele dia (20/06/2013), ao cair da noite na Praça Cívica, encontrei com dois conhecidos a engrossar os gritos de ordem, mudança e progresso. Lembrei que o primeiro, representante do legislativo municipal de Goiânia, apoiou as mudanças no Plano Diretor e o processo de desafetação de áreas públicas. Recordei que o segundo, profissional liberal, despediu sua empregada em função do custo do depósito do FGTS, que não ultrapassa setenta reais (R$ 70,00) mensais, afinal empregadas domésticas, na sua argumentação, não deveriam ter os mesmos direitos que profissionais liberais “educados”.  Pensei, naquele momento, o quanto o discurso da dissolução das identidades, professado pelas mídias e alguns intelectuais e assumido com ingenuidade por parte de muitos integrantes das passeatas, pode ser perigoso para a construção de um espaço público inclusivo. A sensação de déjà vu foi inevitável.

 

Tadeu Alencar Arrais
Professor de Geografia do Instituto de Estudos
Socioambientais da Universidade Federal de Goiás

tadeuarrais@ibest.com.br

 

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Ficha bibliográfica:

ARRAIS, Tadeu Alencar. Mobilidade e a dissolução das identidades: o que esperar de um movimento que não aceita as contradições. In: Territorial - Caderno Eletrônico de Textos, Vol.3, n 4, 23 de junho de 2013. [ISSN 22380-5525].